Saturday, November 02, 2013

"Aulas de terror" numa escola de criminalidade

Pedro J. Bondaczuk

O presidente peruano, Alan Garcia Perez, nas inúmeras promessas que fez durante a campanha presidencial do ano passado, deu maior ênfase a uma muito especial: a de que, em pouco tempo, se fosse eleito, chegaria a bom termo com os vários grupos rebeldes que então atuavam no Peru, para pacificar a nação e iniciar um vigoroso processo de recuperação nacional, com a participação de todos.

Os guerrilheiros não se abalaram e desde o primeiro instante demonstraram não acreditar, nem um pouco, nesse tipo de proposta. Não só não aceitaram qualquer espécie de pacto, com o então candidato, como ainda procuraram impedir a própria realização desse pleito, que tentaram, de todas as formas, sabotar.

Após conseguir a vitória nas urnas, o jovem presidente, quando ainda recém-empossado, bem que tentou cumprir o que havia prometido. Entretanto, os guerrilheiros ignoraram solenemente essa mão estendida. E foram mais longe ainda. Passaram a sabotar as várias sedes do partido governamental, a outrora legendária APRA de Haya de La Torre, explodindo inúmeras de suas unidades.

Em pouco tempo, tudo o que Alan Garcia criticou em palanque, acerca dos métodos do seu antecessor, Fernando Belaunde Terry, de tratar com os terroristas, teve que ser reconsiderado. Ele prometeu, por exemplo, durante a campanha, suspender o estado de sítio em várias províncias do país onde o "Sendero Luminoso" é mais atuante. Não cumpriu essa promessa. E as prisões passaram a ficar cada vez mais superlotadas de guerrilheiros, ao invés de se esvaziarem.

Os vários grupos extremistas deram o troco a esse recrudescimento da repressão. Voltaram a agir, com virulência redobrada, desmoralizando todas as medidas oficiais para repor o Peru à ordem. As rebeliões nos três maiores presídios peruanos, registradas desde anteontem, não são nada mais do que uma decorrência dessa ausência de soluções para a questão.

Diz o bom senso que concentrar num mesmo local meia dúzia de terroristas, gente que se supõe seja cheia de truques e de expedientes, já é uma rematada tolice. Imagine-se fazer isso com 500! Pois foi o que aconteceu, especialmente em El Frontón. A conseqüência natural e lógica dessa concentração foi exatamente o que aconteceu. Pretextando um protesto contra a possível transferência para uma instituição penal localizada em pleno deserto, esses presos especiais se rebelaram e ocuparam a própria prisão. Mais do que isso, a transformaram numa verdadeira fortaleza, onde estão enfrentando até o Exército.

Causa estranheza ao observador o fato dos amotinados disporem de tantos recursos. Não quanto às armas de fogo que estão usando, pois essas não são muito difíceis de serem infiltradas, por maior que seja a vigilância estabelecida para evitar tal procedimento. Mas os guerrilheiros construíram dentro de El Frontón uma fortificação de pedras e cimento! É incrível, mas é verdade!

Onde estavam os guardas que não viram quando essa paredes reforçadas estavam sendo levantadas? Onde os amotinados obtiveram o material para que isso pudesse ser feito? E qual a razão de tantos "senderistas" estarem juntos num mesmo estabelecimento penal?

Já é hora do presidente Alan Garcia, que tem mostrado tanta aptidão e competência para equacionar algumas das graves questões econômicas peruanas, se voltar para a área social. Socorrer populações miseráveis, desvalidas, virtualmente abandonadas, que acabam por se transformar, fatalmente, em autênticos "caldos de cultura" para que o vírus destruidor do extremismo surja e se multiplique assustadoramente. E que, sobretudo, haja mais racionalidade e bom senso no sistema carcerário do Peru.

No Brasil, quando foram misturados presos políticos com marginais comuns em algumas instituições penais, todos se lembram bem o que aconteceu. Os extremistas ensinaram métodos sofisticados de guerra urbana aos delinqüentes. E por anos e anos seguidos, os assaltos cinematográficos a bancos transformaram-se até em uma rotina. Ao que tudo indica, o processo está em acelerada reprodução no Peru.

(Artigo publicado na página 10, Internacional, do Correio Popular, em 20 de junho de 1986)


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