Thursday, November 14, 2013

Fria lógica dos confrontos raciais


Pedro J. Bondaczuk


A África do Sul, ao que tudo indica, está muito próxima de um confronto, de grandes proporções, entre negros e brancos, fato que parece inevitável. Nos 37 anos da política do “apartheid”, que foi implantada em 1948, nunca o clima esteve tão tenso, entre a minoria dominadora e obstinada e a maioria segregada e ávida por conquistar espaços dentro da sociedade nacional que ajudou a criar, mas da qual não participa, na qualidade de cidadã.

A decretação, no sábado, do estado de emergência, pelo presidente Pieter Botha, é bastante sintomática. Reflete, segundo afirmou o bispo anglicano Desmond Tutu, ganhador do Prêmio Nobel da Paz do ano passado, apenas a admissão do governo sul-africano de que, pelo menos parte do país é, hoje, ingovernável. E a situação só tende a se agravar.

Até aqui, a luta racial sempre se restringiu às áreas habitadas pelos negros. Aos subúrbios dos grandes centros urbanos e às cidades-dormitórios, autênticos guetos que destoam da condição de desenvolvimento que a África do Sul ostenta no cenário mundial.

Os maiores confrontos, diríamos melhor, massacres, foram verificados no Sowetto, em Shaperville e nos arredores de Port Elizabeth. E as vítimas fatais foram sempre as mesmas. Ou seja, os negros, indefesos, desarmados e alvejados impunemente pela polícia, que conta com poderes ilimitados, nunca vistos nem mesmo nas piores ditaduras de que se tem notícia.

Entretanto, os opositores da política do “apartheid” (e eles são, hoje, cinco sextos da população sul-africana, ou seja, 22 milhões de pessoas) garantem que, doravante, vão mudar sua estratégia. Prometem deslocar o conflito para as até aqui inatingíveis cidadelas dos cidadãos brancos. E isso, sem dúvida, fará esse “barril de pólvora” explodir de vez.

Acontece que o governo0 sul-africano dispõe de uma força impressionante, representada por armas modernas e ultra-sofisticadas, por uma polícia feroz e disposta a ir às últimas conseqüências na defesa dos privilégios dos “affrilkaners” e de uma Justiça de extrema rapidez, e, sobretudo, de grande severidade.

Todo esse aparato torna-se ainda mais eficiente e muito mais repressor com os poderes sobressalentes obtidos com o estado de emergência. Essa medida permite, por exemplo, que qualquer pessoa seja presa, pelo prazo que as autoridades julgarem necessário, sem que contra ela seja feita qualquer acusação. E a detenção é em caráter de absoluta incomunicabilidade.

O que se passa nessas prisões não é muito difícil do leitor imaginar. Inúmeros têm sido os casos de mortes por torturas dos infelizes detidos. Foi o que ocorreu, por exemplo, com o líder negro Steve Bikko, em 1977. Ou com o sindicalista branco, contrário ao “apartheid”, Neil Agget, “encontrado” enforcado em sua cela em 1982, no mais clássico estilo do “gorilismo” latino-americano. Ou no caso0, ainda mais recente, acontecido com Andries Raditsela, morto em conseqüência de ferimentos recebidos no período em que esteve preso, em maio passado.

As posições das duas partes ficam cada vez mais distantes uma da outra. Os brancos da África do Sul, descendentes de holandeses, julgam-se predestinados por Deus. São de uma obstinação muito maior que a dos sul-rodesianos de Ian Smith. Estes acabaram por ceder o poder à maioria na ex-Rodésia do Sul, não sem antes fazerem correr muito sangue (negro, naturalmente), possibilitando o surgimento do atual Zimbabwe. Seu aparato repressivo é muito superior, assim como o poder econômico.

Mas eles têm por adversários pessoas movidas por férrea determinação, um quase fanatismo. Gente como Nelson Mandela, Steve Bikko, e outros líderes corajosos do Conselho Nacional Africano. Homens que não admitem mais ser estrangeiros em seu próprio país. Cidadãos dispostos a transformar o sonho da criação da Azânia (nome que os negros dão à África do Sul) numa realidade.

Por isso, não é nenhum exagero se temer por um abominável banho de sangue nessa atormentada e problemática sociedade. É, até mesmo, uma pura questão de lógica.

(Artigo publicado na página 11, Internacional, do Correio Popular, em 25 de julho de 1985).


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