Wednesday, November 13, 2013

Sem tempo para digerir

Pedro J. Bondaczuk

O início do século XXI, em especial nestes seus primeiros treze anos, caracterizou-se, entre outras coisas – entre as quais um profundo desrespeito e pouco caso com a vida – pela velocidade. ”Sinais dos tempos”, dirá o leitor pragmático, achando tudo normal. Talvez esteja certo. Essa rapidez, que beira a instantaneidade, aparece em tudo. No surgimento e solução de crises, na criação e destruição de sistemas e principalmente na informação. As notícias, hoje em dia, como quase tudo o mais, tornaram-se objetos de consumo imediato: descartáveis, velozes, superficiais, "prêt-à-porter", efêmeras. Fatos que talvez transformem para sempre a realidade emergem, ganham as manchetes e em poucos dias desaparecem, sem que os “consumidores” do noticiário saibam do epílogo dos acontecimentos.

É como se algum leitor ávido por se informar lesse, com uma velocidade estonteante, os primeiros capítulos de uma infinidade de livros. Teria conhecimento do início de uma grande quantidade de histórias, das quais desconheceria, no entanto, o desfecho. Ou mais, é como se fizéssemos um lauto banquete, com requintes de glutonaria e, antes que o digeríssemos, participássemos de um outro, tão ou mais exagerado. O escritor italiano Umberto Eco classificou esse estilo contemporâneo de fazer jornalismo de "sistema de celebridades". Os meios de comunicação não se limitam mais a simplesmente reportar o que acontece, mas proposital ou acidentalmente, deliberada ou fortuitamente, acabam ou sendo notícia ou a induzindo a acontecer.

O romancista italiano cita um caso em que isto ocorreu: "A contestação estudantil de 1968 foi influenciada pela intervenção da mídia, que favorece a sua reprodução quase instantânea em países diferentes com padrões similares. Mas se no tocante a 1968 se pode falar de um fenômeno que explodiria de qualquer maneira por uma necessidade histórica, diferentes são as reflexões a fazer pelas muitas reproduções de 1968 em menor escala. Freqüentemente elas brotaram porque grupos estudantis tendiam a copiar a imagem do estudante criada pela mídia". Respondam com sinceridade: não ocorreu algo semelhante nas recentes manifestações populares (populares?) que, em escala muito mais ampla, varreram o País de ponta a ponta? Desconfio que sim.

Ressalte-se que em 1968 não havia a internet e muito menos as redes sociais a facilitarem a convocação de manifestantes, como ocorreu em junho de 2013. A imprensa, muitas vezes de forma até involuntária, é criadora por excelência de estereótipos. E de crises. Não é por acaso e não sem certa dose de razão que o partido que está no governo há já três mandatos veja nela, ou em boa parte dela, mera facção partidária fazendo as vezes de oposição. Criou (ironicamente) até uma sigla para o seu conjunto: PIG.

Não posso jurar se é proposital ou não, mas esse conjunto de três letras forma a palavra “porco”, em inglês. Creio que se tratou de coincidência mesmo. Mas... A sigla quer dizer (oficialmente): Partido da Imprensa Golpista. Exageros a parte, boa parte da mídia não cumpre um dos pressupostos da atividade a que se propõe exercer: a isenção. É partidária e muito!  Com o passar do tempo, de tanto o modelo estereotipado ser imitado, finda por se tornar concreto. Da mesma forma que os órgãos de comunicação podem ser utilizados para opor resistência a tiranos e tiranias – o Leste europeu, no período comunista, criou seus órgãos "underground", mimeografados, para expor a verdade ao povo, alguns dos quais com circulação até maior do que os oficiais – se prestam a estimular, sugerir, apoiar ou perpetuar ditaduras.

Não é por acaso que quando se dá um golpe de Estado, os primeiros pontos a serem tomados pelos golpistas são as emissoras de rádio e televisão e as redações de jornais. É verdade que hoje há a internet para atrapalhar as ações dos tais brucutus. Mas... O mesmo meio com o qual se pode despertar a consciência das pessoas, se mal empregado, tende a alienar os cidadãos. A televisão, pela sua instantaneidade, era, até não faz muito, veículo virtualmente imbatível em termos de ser o primeiro a dar a notícia. Hoje já não é mais. Essa prioridade cabe, agora, à internet e possivelmente às redes sociais.

Em 17 de janeiro de 1991, por exemplo, a humanidade teve a oportunidade de, pela primeira vez na história, assistir ao início de uma guerra sem dela participar, como o aterrorizante bombardeio a Bagdá, mostrado, ao vivo, no momento exato em que acontecia, pela TV. Hoje, possivelmente, tomaria ciência de uma ação bélica do tipo em algum dos tantos sites de notícias. E veria, poucas horas depois do início das ações militares, se não em meros minutos, algum vídeo amador, ou no Youtube ou em alguma das redes sociais, detalhando a ofensiva. Esse poder fantástico implica também uma responsabilidade imensa, que quase nunca fica clara a quem compete o assunto. Na internet, autêntica “terra de ninguém”, não há como responsabilizar quem difunda, por exemplo, informações falsas. Cabe, apenas, aos usuários, à sua sensibilidade e principalmente intuição, dar crédito ou não àquilo que ficam sabendo pela internet.

O jornalista francês François Henri de Virieu, num ensaio publicado pelo "Caderno de Sábado", do "Jornal da Tarde", constatou: "...O sistema midiático, isto é, a televisão e todas as redes por cabo, fibras ópticas, feixes hertzianos ou satélites que fazem circular a informação, pesa cada vez mais em nossa vida política e social. Ninguém comanda verdadeiramente este conjunto. Não há mais cidadão Kane, pois as responsabilidades estão muito diluídas. Mas todas as nossas instituições são afetadas por ela". E como são... Isso é positivo? É negativo? O tema comporta infinitas discussões, com argumentos pró e contra.

Hoje em dia, mais notadamente nos Estados Unidos (mas também no Brasil), um político não ganha eleições pela mensagem que transmite, pelo programa de governo que propõe, mas pela imagem que transmite em suas aparições na TV. Isto ocorreu, por exemplo, com John Kennedy em relação a Richard Nixon. E repetiu-se com Ronald Reagan em seu confronto com Jimmy Carter, no último debate televisionado entre ambos. E com outros tantos candidatos, ora democratas, ora republicanos.

Essa fartura de informação, além de tudo truncada, tende a conduzir a opinião pública, cada vez mais participante das decisões dos políticos, a terríveis equívocos na avaliação de crises. O norte-americano Daniel J. Boorstin observou a esse respeito: "A Revolução Russa de 1917 alimentou a euforia norte-americana com a deposição do regime opressivo do czar e a ascensão do governo popular num vasto território. O terror bolchevista e o regime totalitário stalinista que vieram depois fizeram-nos repensar as coisas. Os acontecimentos de 1917 teriam sido apenas uma guerra civil que substituiu os czares pelos 'comiczares'?"

A mesma pergunta poderia ser feita agora em relação ao Egito, à Líbia, à Tunísia e vai por aí afora. A desagregação da União Soviética ocorrida em fins de 1991 será fator de estabilidade ou traiçoeira bomba de tempo que ameaça toda a humanidade no longo prazo? Apesar de já haver passado 22 anos dessa ocorrência, a dúvida ainda persiste. Desde os tempos da Babilônia – a história nos ensina – a desagregação de impérios produziu guerras monumentais, ou durante, ou antes, ou depois desse processo. O fim do século XIX e início do XX foi um período desse tipo. Dois impérios, o Austro-Húngaro e o Otomano, se desagregaram. E o que tivemos? Três guerras nos Balcãs e a primeira conflagração mundial. Não seria, portanto, agora o momento adequado de se agir e de criar alternativas, justas, lógicas e factíveis, em vez de se comemorar suposta vitória do capitalismo, que nem está com essa bola toda?


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