Friday, November 08, 2013

Catarse de multidões solitárias

Pedro J. Bondaczuk

A telenovela é um fenômeno nacional que merece cuidadoso estudo. Tornou-se, há já bom tempo, produto de exportação brasileiro para cerca de meia centena de países, muitos dos quais conhecem nossos costumes e procedimentos (ou estereótipos deles) somente por esse meio. Em apenas meio século, o gênero conquistou um público cativo, fiel, apaixonado, distribuído por todas as faixas etárias e classes sociais, constituindo-se no maior fator de padronização cultural deste país de dimensões continentais, com tantas e profundas diferenças.

As novelas ditam moda, padronizam modos de se expressar e de se comportar, influenciando, diretamente, para o bem e para o mal, comunidades inteiras dos grotões mais remotos e atrasados do País,  que não faz muito estavam ainda no século XIX, em termos de tradições, e que são trazidas, subitamente, à tal da “modernidade”, embora nem sempre no seu aspecto positivo e desejável. O gênero passou por muitas mudanças ao longo do tempo, incorporando avanços tecnológicos que lhe deram maior dinamismo, além de mais verossimilhança às histórias narradas.

Antes de 1964, ano geralmente tomado como referencial, a telenovela já existia, mas na forma de teleteatro. Os enredos eram diretos, e não segmentados em mais de uma centena de capítulos, como agora. Eram apresentados na íntegra, em um único dia. Não contava, como hoje, com redatores específicos. Seus textos eram adaptações de peças teatrais ou de romances de escritores famosos, nacionais e internacionais. Foi apenas na década de 60 do século passado, com “O direito de nascer”, que o gênero, já com formato parecido com o atual, começou a se impor, a ganhar vida autônoma, a criar sua própria linguagem, e a abrir espaço para redatores específicos.

Desde os mais remotos tempos, alguns séculos antes da criação deste fascinante (e viciante) veículo de comunicação de massas, que é a televisão, as pessoas sentiam irresistível necessidade de fuga da realidade, dura e maçante, do cotidiano. No século XVIII, por exemplo, a diversão predileta das elites era a leitura, em saraus literários, de romances burgueses, que se constituíam na grande novidade de então, em termos de análise de costumes e comportamentos nas grandes cidades da época.

No século XIX, esse tipo de literatura sofisticou-se, porém popularizou-se. Os que exploravam comercialmente essas produções decidiram criar suspense em torno das histórias, publicando-as em capítulos, para sustentar o interesse dos consumidores, em folhetins encartados em jornais, a princípio semanalmente e, na sequência, com periodicidade diária. Esse tipo de literatura, utilizando esse meio de difusão, invadiu os primeiros anos do século XX e tornou-se a diversão predileta de nossos avós, até a década de 30, quando do advento e da rápida popularização do rádio.

A pergunta que os comunicadores fazem, com freqüência, que comporta muitas respostas, sem que haja consenso, é: por que o gênero novela polariza tanto as pessoas? Quais os componentes psicológicos que envolve? Teria o objetivo de meramente fazer o tempo passar de uma maneira mais amena e despreocupada? Há muita controvérsia a esse propósito. Para o pensador francês, Edgar Morin, as telenovelas apresentam, aos seus “consumidores”, uma “concepção lúdica da vida”. Esta é apresentada como uma espécie de jogo de perde e ganha, como suave e inocente brincadeira (algo muito distante da realidade nua e crua). A novela, na concepção de Morin, “abriria o infinito do cosmo da realidade e das galáxias imaginárias” aos seus fieis apreciadores.

Se observarmos a telenovela com olhar crítico, concluiremos que todas têm uma raiz comum, uma espécie de fórmula fixa em seus enredos. Contam com tramas, personagens e cenários triviais, que são parecidos, se não iguais, aos da vida de cada um de nós. São apresentados como se fossem uma “realidade”, um fato que estaria acontecendo e do qual fossemos meramente testemunhas. Isso permite às pessoas, massacradas no dia a dia por responsabilidades familiares, profissionais e sociais, a empreenderem momentânea fuga de suas aflições. A descobrirem, ou reencontrarem, os tantos paraísos que cada um de nós idealiza (com maneiras próprias, de acordo com a estrutura psicológica de cada um).

O telespectador encontra nas novelas uma “outra vida”, mais dinâmica do que a sua, onde as transformações não ocorrem em intervalos de anos, mas de dias, quando não de segundos. É induzido a imaginar um convívio social envolvido em mistérios, é verdade, mas também com suspense e, principalmente, com magia, em que tudo se torna possível. Em que, a despeito de conflitos e paixões, o amor “sempre” acaba prevalecendo e tudo, invariavelmente tudo, termina bem: os maus são punidos por suas maldades e os bons acabam reconhecidos e premiados. Isto é, o telespectador é induzido a imaginar situações e conseqüências quase sempre contrárias à realidade.

Na vida real acontece, salvo raríssimas exceções, exatamente o oposto dos enredos. Esses componentes de fantasia aliviam, subconscientemente, as angústias e tensões do cotidiano. O telespectador projeta nos personagens seus próprios conflitos e desejos. O antipático, por exemplo, que massacra o herói da história, mas que termina invariavelmente punido nos derradeiros capítulos, ganha o aspecto subconsciente do chefe de repartição, cujas ações de liderança são mal interpretadas. O “consumidor” de novelas vê, nele, subconscientemente, a figura do opressor que o angustia: o professor durão, o chefe canalha, o pai ditatorial etc. etc. etc.

Com o desenrolar dos capítulos, e dependendo da história, o telespectador passa a viver, pelo menos naquela uma hora diária em que a novela que assiste vai ao ar, a vida romanesca dos personagens. Alguns, inclusive, chegam a “viver” com maior intensidade essas fantasias do que a própria vida real, via de regra descolorida e trivial. Na minha concepção, esta é a fórmula padrão do gênero, que funciona, prende e apaixona: amor inicialmente não correspondido, sofrimento e final feliz.

Para David Riesman, a identidade popular com as novelas se deve à existência das “multidões solitárias”, sobretudo nas grandes cidades, onde as pessoas moram próximas das outras por anos, às vezes por décadas, e mal se conhecem. Quando muito, limitam-se a se cumprimentar, distraídas, quando cruzam umas com as outras. Hoje sabemos, por exemplo, quase tudo sobre políticos, artistas e jogadores de futebol famosos, mas não sabemos praticamente nada do nosso vizinho de muro. É, como diz o poeta Carlos Drummond de Andrade, nestes expressivos versos do poema “A bruxa”:

“Nesta cidade do Rio
de dois milhões de habitantes,
estou sozinho no quarto.
Estou sozinho na América”     


Esse é o sentimento da maioria: o de profunda e aterradora solidão. E a telenovela funciona como elo para unir esses milhares e milhares de solitários, para galvanizar sua atenção, para tiranizá-los, hipnotizá-los, quem sabe, mas para induzi-los a fazer uma espécie de catarse diária, projetando seus sonhos, angústias, desejos, aflições etc.etc.etc. em personagens que só existem no plano da ficção.

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