Friday, March 03, 2017

Perestroika ou caos, a opção soviética


Pedro J. Bondaczuk


O líder soviético Mikhail Gorbachev pôde sentir de perto, ontem, na cidade siberiana de Krasnoyarsk, as dificuldades e resistências que suas reformas vão enfrentar perante a população do seu país. É que os trabalhadores estão confundindo o atual estado de escassez de mercadorias (e principalmente de gêneros alimentícios), que é conseqüência da política equivocada posta em prática pelos dirigentes passados, com a "perestroika", que mal está começando. É claro que os burocratas do Partido Comunista, que está na iminência de perder privilégios e parcelas consideráveis de poder, estão trabalhando nas sombras para estimular tal equívoco. Eles contam capitalizar o descontentamento popular para fazer com que as reformas não dêem em nada e tudo permaneça como está, como se isso fosse bom para o país ou sequer possível.

No mês passado, o comentarista econômico da Rede Globo, Paulo Henrique Amorim, entrevistou, em Moscou, o economista Abel Agabenyan, o homem que "fez a cabeça" de Gorbachev, mostrando ao líder do Cremlin a necessidade da "perestroika". Essa personalidade, membro da Academia de Ciências da URSS, num pronunciamento dos mais lúcidos que já ouvimos de alguém do Leste europeu, ressaltou, dramaticamente, que as mudanças que se pretendem empreender não se tratam de nenhum capricho. São a "única forma de tirar a União Soviética do abismo". E destaque-se que quem disse isso, com tamanha crueza, não foi nenhum jornalista norte-americano ou político da Europa Ocidental. Foi um integrante, e dos mais influentes, do próprio regime marxista soviético.

Agabenyan destacou que a sociedade do seu país não pode sequer cogitar de que a "perestroika" fracasse. Deixou bem claro que o processo reformista é "vital" para que a União Soviética continue sendo uma superpotência. Reconheceu que muitas medidas "amargas", tendentes a gerar descontentamento popular, terão que ser tomadas, como por exemplo, o corte de subsídios ao pão, que de tão barato hoje em dia, é desperdiçado pela população. Tudo às custas do governo, que não tem fôlego e dinheiro para sustentar a ineficiência, a irresponsabilidade e o esbanjamento desregrado que se faz e ainda investir no futuro do país.

Somente um homem de mente aberta como Gorbachev, que não teme enfrentar a opinião pública e nem busca esconder os "podres" do seu regime no "armário", é que poderia correr tamanho risco de enfrentar poderosos burocratas, que transformaram o Estado soviético em algo quase igual ao czarismo, tempo em que a Rússia foi uma das sociedades com a maior estratificação social, onde havia castas rígidas e intransponíveis e que faziam da maioria do povo mera massa amorfa e sem nenhum direito, nem mesmo sobre as próprias vidas. Ao que se conclui que a URSS tem, neste momento crítico de sua história, apenas uma alternativa: a "perestroika" ou o caos.


(Artigo publicado na página 13, Internacional, do Correio Popular, em 13 de setembro de 1988)

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