Thursday, April 28, 2016

Sófocles esbanja talento na descrição da peste


Pedro J. Bondaczuk

As epidemias são retratadas, em todas suas trágicas dimensões e consequências, em vários e vários livros da mais remota antiguidade, quer a grega, quer a indiana, quer a chinesa etc., como se pode comprovar nas relativamente escassas obras que chegaram incólumes até nós. É certo que, invariavelmente, são tratadas como fenômenos naturais, posto que nefastos, da natureza ou, o mais das vezes, como “castigo dos deuses”. Pudera! Não se conheciam as verdadeiras causas dessas doenças (e nem se poderia), notadamente da peste bubônica, aquela que mais vezes é citada, posto que não nominalmente, mas mediante a descrição dos sintomas.   É o caso, por exemplo, de uma das mais famosas (e geniais) peças da dramaturgia mundial: “Édipo rei”, do grego Sófocles.

Ressaltar a importância desse drama, e de seu autor, chega a ser redundante. Não há pessoa razoavelmente bem-informada, de cultura mediana, que não conheça, nem que seja algum escasso detalhe, por ínfimo que seja, desse icônico personagem, mesmo que nunca tenha lido sequer o resumo da obra em que ele aparece e jamais tenha assistido à peça, ou mesmo freqüentado, algum dia, qualquer teatro. Édipo, para refrescar a memória dos “esquecidos”, é aquela figura que acabou se apaixonando pela mãe, com a qual se casou e assassinando o pai, sem saber, claro, seu vínculo filial com uma e com outro. A psicanálise apropriou-se desse infeliz monarca ficcional para nomear um complexo, que nem mesmo é tão raro.

Recorde-se que a peça foi escrita há quase três milênios (por volta de 430 a.C) e, ainda assim, continua incrivelmente atual. Segue sendo, por exemplo, encenada (décadas, séculos, milênios) em palcos os mais diversos, tanto de escolas quanto de grandes teatros mundo afora e praticamente todos os dias. Quantas foram suas encenações? Como saber?! Provavelmente, milhões!!! Quem sabe, até mais. Não tenho dúvidas, por exemplo, que hoje mesmo, no momento em que escrevo estes comentários, alguma companhia teatral, alhures, está encenando “Édipo  rei”, em algum palco de Londres, Paris, Roma, Nova York, Boston etc.etc.etc. Dela, sim, se pode afirmar que se trata de campeã de audiência. Cabe, aqui, até mesmo, um superlativo (tão ao meu gosto): campeoníssima!

O drama, criado por Sófocles, começa com a cidade de Tebas sendo assolada pela epidemia de peste. É certo que o dramaturgo utilizou a doença como uma espécie de metáfora. Pretendeu, e conseguiu, com grande maestria, simbolizar a violência que se irradiava e se expandia naquela comunidade de maneira contagiosa, que resultaria, ao fim e ao cabo, na desgraça do infeliz personagem central.Sófocles escreve, a certa altura da peça:

“(...) Ó poderoso Édipo, rei da minha pátria! Já vês que somos de diferentes idades, nós que nos achamos aqui, ao pé dos teus altares. São crianças que apenas podem andar; velhos sacerdotes encurvados pela velhice; eu, o sacerdote de Júpiter, e estes, que são os escolhidos entre a juventude. Nós e o resto do povo, com os ramos dos suplicantes nas mãos, estamos na praça pública, prosternados diante dos templos de Minerva e sobre as fatídicas cinzas de Imeno. A cidade, como tu mesmo vês, comovida tão violentamente pela desgraça, não pode levantar a cabeça do fundo do sangrento torvelinho que a revolve. Os frutíferos germes secam nos campos; morrem os rebanhos que pastam nos prados, assim como as crianças nos peitos de suas mães (...)”

Terrível descrição de uma cidade tomada pelo medo, com a morte ceifando, sem cessar, multidões. É o relato de alguém que já testemunhou uma epidemia, com suas catastróficas conseqüências e captou com precisão as reações dos atingidos. E Sófocles prossegue: “(...) Invadiu a cidade o deus que provoca a febre: a destruidora peste que deixa desabitada a mansão de Cadmo e enche o inferno com nossas lágrimas e gemidos. Nem eu e nem estes jovens que estamos junto ao seu lugar, viemos implorar-te como a um deus, mas porque te julgamos o primeiro entre os homens para socorrer-nos na desgraça e para obter o auxílio dos deuses. Tu, que recém chegaste á cidade de Cadmo, nos redimiste do tributo que pagávamos à terrível esfinge e isto sem haver nos inteirado de nada e nem haver dado nenhuma instrução, mas que só, com o auxílio divino – assim se diz e se crê – foste o nosso libertador (...)”.

Não irei, óbvio, sequer resumir o enredo da peça. No caso, não me importam as circunstâncias que levaram Édito a matar o pai, Laio (cuja paternidade desconhecia) e nem a casar-se com Jocasta, a mãe. Meu foco é a descrição de Sófocles da epidemia que assolava Tebas, tão terrível, ou mais, do que a esfinge, da qual nosso herói (ou anti-herói?) a livrou antes. Recomendo ao leitor que leia essa magnífica obra, uma das sete (entre as 123 que o dramaturgo compôs) que escaparam incólumes da destruição, para a satisfação dos que apreciam a boa literatura (as outras seis são “Ajax”, “Antigona”, “As Traquínias”, “Electra”, “Filoctetes”,  e ´”Édipo em Colono”). Só adianto que, para salvar Tebas da peste que a assolava, Édipo enviou seu cunhado, Creonte, para falar com o oráculo de Delfos. E este afirmou que a cidade só seria salva depois que se expulsasse dela o assassino de Laio, o rei anterior. E este era o infeliz herói criado por Sófocles. Ou seja, o próprio Édipo.


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