Wednesday, April 13, 2016

Amor anda de mãos dadas com o temor

Pedro J. Bondaczuk

O amor e o temor andam juntos? Entendo que sim, mesmo que não identifiquemos os medos que o acompanham, mas que nem por isso deixam de estar presentes. Diria, onipresentes. Tememos, quando amamos, por exemplo, não sermos correspondidos pela amada, por maiores demonstrações em contrário que ela nos dê. Nutrimos receio de que algo em nossa aparência, ou em nossa conduta, ou em nossa vida, ou sabe-se lá mais no quê, não seja apreciado por ela. E os temores se multiplicam, antes, durante e mesmo no pós-relacionamento amoroso. Aliás, nem mesmo sou o autor dessa constatação. Li-a, há algum tempo, meditei a propósito e não tive como discordar.

Quem escreveu isso, e há quatro séculos, foi um dos ocasionais e um tanto raros gênios da Literatura que a humanidade já produziu. Foi o espanhol Miguel de Cervantes Saavedra, cujo quarto centenário de morte irá se completar em 23 de abril deste ano de 2016. Curiosamente, ele morreu no mesmo dia, mês e ano que outro consagrado (e polêmico) ícone literário de todos os tempos. Refiro-me ao poeta, dramaturgo e ator inglês William Shakespeare. Se bobear, ambos morreram, até, na mesma hora (embora essa suposição seja somente minha, sem nenhuma base em fatos ou mesmo em evidências), sabe-se lá.

A afirmação exata de Cervantes a propósito foi esta: “Andam o amor e o temor tão unidos que, para onde quer que voltes o rosto, vê-los-eis juntos. E o amor não é soberbo, como alguns dizem, mas é humilde, agradável e manso. Tanto que costuma perder aquilo a que tem direito para não dar desgosto a quem quer bem”. Essas palavras constam do livro que Cervantes considerou sua obra-prima. Se vocês estão pensando em “Dom Quixote de La Mancha” (cujo título verdadeiro é “O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha”) se enganaram. Embora se trate da obra que o consagrou e imortalizou na literatura mundial, o escritor espanhol não tinha, lá, grande apreço por ela. Tanto que levou quase dez anos para publicar a segunda parte e quase desistiu dessa continuação.

O livro pelo qual Miguel de Cervantes tinha maior apreço, que considerou, até o dia da sua morte, sua obra-prima, é o romance “Os trabalhos de Persiles e Sigismunda”. O irônico é que ele nem mesmo testemunhou sua publicação. Esse “romance bizantino”, como foi classificado na época, foi publicado em 1617, um ano após a morte do autor. O livro teve espetacular acolhida. Prova que foram impressas seis edições quase simultâneas, lançadas praticamente juntas em seis diferentes e importantes praças da Europa: Madri, Barcelona, Lisboa, Valência, Pamplona e Paris. Fico me perguntando: o que deu errado, o que aconteceu de fato com esse romance para que fosse esquecido quase que por completo, em reles par de anos, a tal ponto de ás vezes sequer ser mencionado quando as pessoas citam a obra de Cervantes? Vá se saber!

Coisa parecida com esta acontece, volta e meia, com muitos escritores. Aconteceu comigo. Nem sempre os livros que consideramos “perfeitos” (ou quase) têm boa receptividade por parte da crítica e, sobretudo, dos leitores, que preferem outras obras nossas (quando preferem, claro), justamente aquelas a que não damos a mesma importância. Talvez já tenha ocorrido o mesmo com você, caríssimo escritor, que me dá a honra da sua leitura. E nem precisam ser livros. Há dias, por exemplo, que escrevo crônicas “redondinhas”, que as pessoas ao meu redor consideram geniais, nas quais não detecto a menor falha, escritas com sentimento e paixão e... quando as divulgo nos vários espaços de divulgação que disponho, não geram o menor efeito. Passam batidas, quando não são criticadas exatamente por aquilo que considero sua maior virtude: por “falta de emoção”. Claro que é frustrante, mas...

Os “Trabalhos de Persiles e Sigismunda” é uma bela história de amor. Emocionei-me com sua leitura. Narra as peripécias de um príncipe e de uma princesa nórdicos, apaixonados, que decidem se casar, mas em Roma, para onde partem do Norte da Europa. Ambos fazem-se passar por irmãos. Ela veste-se de homem, para evitar alguns perigos a que as mulheres estavam submetidas na época. Os dois cruzam mares, repletos de ilhas, até chegarem a Lisboa. Da capital portuguesa, seguem a pé, em direção à Cidade Eterna, tendo que superar obstáculos mil. Seus nomes de batismo são Periandro e Auristela (que só após atingirem o objetivo, ou seja, depois do matrimônio cristão, e em uma igreja de Roma, mudam para Persiles e Sigismunda). Cervantes nos apresenta, além dos dois apaixonados protagonistas, grande número de personagens, alguns até bastante exóticos, que nos chamam a atenção. Sua pretensão, com esse livro, foi criar, para a narrativa espanhola, um modelo de romance grego de aventuras adaptado a uma visão de mundo católica.

O romance durou catorze anos para ser escrito e acabado e teve duas etapas de redação. A primeira foi entre 1599, quando iniciou a escrita, e 1600, quando interrompeu os trabalhos. Levou nove anos para retomá-lo, o que fez em 1609, completando-o em 1613, embora depois disso ainda fizesse alguns retoques. Como se vê, foi um livro pensado, refletido, “esmerilhado” e impregnado de muito realismo, característica que os críticos sempre destacaram na obra de Cervantes. O escritor tinha verdadeira obsessão pela verossimilhança, mesmo quando lançava mão do fantástico, o que era bastante frequente. Veja-se como Dom Quixote tratava moinhos de vento: como gigantes que tinha que vencer. Em suma, fico com a conclusão desse gênio, sobre o amor, com que iniciei estas reflexões. A de que esse magno sentimento anda, sempre, de mãos dadas com o temor. E não anda?!!


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