Sunday, April 17, 2016

A peste na visão de um Prêmio Nobel


Pedro J. Bondaczuk

Ao tratar de “epidemias como temas de ficção”, um autor tem que ser obrigatoriamente mencionado. E, sobretudo, estudado. Não se trata, todavia, de um escritor qualquer. Longe disso. Trata-se de ilustre ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, o de 1957, pelo “conjunto de sua obra”. Refiro-me ao francês, nascido na Argélia, Albert Camus. Já a partir desse aspecto de nacionalidade despontam os tantos e tantos e tantos aspectos, no mínimo pitorescos, se não curiosos ou mesmo controversos que cercam sua vida (e que cercaram, também, sua morte, até hoje, transcorridos 56 anos, envolvida em polêmica). É o tipo de personalidade que não se pode tratar em um único texto, por maior que seja o poder de síntese do redator, dada a complexidade de sua biografia, a riqueza de sua personalidade e o valor literário e humano de sua extensa e originalíssima produção. Fazê-lo seria, antes e acima de tudo, desperdiçar excelente assunto e assim manter o leitor mal-informado.

Albert Camus explorou o tema “epidemia” em dois livros, ambos clássicos em seus respectivos gêneros. E não apenas clássicos do século XX, o que já seria notável façanha, mas de todos os tempos. Não foi à toa que ele recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Esse foi dos tais escritores cuja premiação se mostrava óbvia, favas contadas. Por mais injustiças que a Academia Sueca pudesse (e possa) cometer (e tem cometido inúmeras) jamais poderia deixar de premiar Albert Camus. E não deixou. O primeiro livro em que o escritor trata do tema “epidemia” é o romance “A peste”, de 1947, que muitos críticos consideram, mesmo em se tratando de obra de ficção, como detalhada crônica do comportamento humano face tragédias como essa, de doença contagiosa que dizima parcela considerável da população na localidade em que se manifesta. Há quem considere esse romance uma espécie de grande metáfora dos horrores da Segunda Guerra Mundial.

Outro livro que tem por pano de fundo uma epidemia (a mesma do romance, por sinal, no caso a peste bubônica) é a peça teatral, em três atos, “Estado de sítio” de 1948. Esses dois trabalhos literários, de gêneros tão diferentes, mas com enormes similaridades, merecem análises á parte, o que me proponho a fazer no devido tempo. Assim como “A peste”, este livro também é metafórico. A metáfora, no caso, desta feita é da guerra civil espanhola, que quase levou esse país à destruição. Para tratar condignamente desse assunto, mesmo que seja necessário exercer ao máximo o poder de síntese, a melhor estratégia é dividi-lo em quatro partes: o autor, o romance “A peste”, a peça teatral “Estado de sítio” e a peste bubônica, presente nos dois livros.

Albert Camus é desses escritores cujas vidas, se não são mais interessantes que suas obras, rivalizam com elas. São muitas as biografias escritas sobre ele, mas duvido que haja alguma completa, que não tenha omitido algum episódio relevante do que foi, pensou ou fez. Ele nasceu na costa argelina, numa cidade então chamada de Mondovi (hoje denominada Dréan), em 7 de novembro de 1913. Ocorre que, então, a Argélia era colônia da França. Apenas tornou-se país independente em 1962, dois anos após a morte do escritor. Era normal, pois, que se sentisse francês (que de fato foi), mesmo não nascendo na metrópole. A independência da Argélia foi obtida após sangrenta guerra, iniciada em 1954, conflito que tive a oportunidade de acompanhar pela imprensa. Confrontou guerrilheiros argelinos e tropas francesas, apoiadas por colonos oriundos da França ou descendentes diretos de franceses, chamados, pejorativamente, de “pieds-noirs”.

Albert Camus praticamente não conheceu o pai. Lucien Auguste Camus também era francês nascido na Argélia e foi morto, em 1914, na batalha do Marne, na Primeira Guerra Mundial. O escritor tinha um ano de idade quando isso aconteceu. Sua mãe, Catherine Helene Sintés, também nascida na Argélia, mas de família procedente da ilha espanhola de Minorca, viu-se forçada a se mudar para Argel, para o bairro operário de Belcourt, que se tornaria famoso durante a guerra de independência por ter sido palco de dantesco massacre de muçulmanos por parte de soldados franceses. A infância de Camus foi pobre, mas as lembranças que o escritor tinha dela estavam longe de ser amargas, como, aliás, revelaria mais tarde em alguns de seus livros.

Com muito sacrifício, em virtude de problemas financeiros da família, que quase o levaram a abandonar os estudos para se dedicar à profissão do tio, a de tanoeiro (em cuja oficina chegou a atuar como aprendiz), conseguiu concluir os estudos, graduando-se em Filosofia. Apesar de ser considerado (ainda é, por muitos) filósofo existencialista, Camus nunca se considerou como tal. Dizia, com orgulho, que era, sobretudo, jornalista. E, de fato, atuou com grande destaque na imprensa. Aos 25 anos de idade, por exemplo, participou da fundação do jornal Alger Republicain. Em 1939, meses antes do início da Segunda Guerra Mundial, mudou-se para Paris. Sua saída da Argélia não foi pacífica. Deveu-se ao fato de haver se indisposto com autoridades coloniais francesas. Camus escreveu uma série de artigos, denunciando a maneira com que a população árabe era tratada. Para livrar-se de complicações, foi aconselhado a deixar Argel. Na França, colaborou, até 1947, com o jornal “Combat”. Atuou, também, como combatente na Resistência durante o duro período de ocupação nazista, arriscando a vida em muitas e perigosas missões. Mais tarde, teve, também, marcante atuação no jornal “Paris-Soir”.

Esses são, apenas, alguns escassos episódios da rica biografia de Albert Camus. Outros mais virão à baila na sequência desta série de comentários. Mas o principal destaque, o assunto de fundo destas considerações, serão seus livros, notadamente os dois em que uma epidemia é utilizada como pano de fundo para os respectivos enredos: o romance “A peste” e a peça teatral “Estado de sítio”, que muitos críticos relacionam com a obra anterior (e o próprio escritor admite certa vinculação).


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