Friday, October 06, 2017

Surpresas do presente

Pedro J. Bondaczuk

A vida lhe dá uma infinidade de presentes diários – e quanto mais anos você tem, mais os recebe – e você, além de não agradecer, e sequer se dar conta dessas dádivas, ainda tem o desplante de desfiar imensos rosários de queixas e lamentações, dando a entender que vive sendo punido. Vá ser mal-agradecido lá na Cochinchina!!!

Só o fato de despertar, a cada manhã, vivo, com um dia inteiro ao seu dispor, para preencher com ideias e realizações, já é um imenso privilégio. Muitos sequer despertam. Claro que você não reconhece isso. Acorda azedo e mal-humorado, dando coices em todo o mundo, como um cavalo xucro que ainda não foi domado. Pensa nas inúmeras “chatices” que terá que enfrentar, a escola, o trabalho, as obrigações, com pouquíssimo tempo para diversão.

Esquece-se, todavia, que essas coisas que você considera tão chatas, são um privilégio que muitíssimos, mundo afora, não têm. Como eles ficariam felizes se tivessem! Há mais de um bilhão de desempregados, somando-se todos os países da comunidade internacional, que não têm a menor noção de como farão para se sustentar e garantir o sustento dos que deles dependem. O que essas pessoas não dariam para terem isso que você considera “chatice”?!

Ademais, você trabalha em um escritório confortável, com ar-condicionado, escrivaninhas modernas e computadores de última geração. O esforço que despende é ínfimo, quase uma brincadeira perto de tantos e tantos e tantos outros trabalhadores. A imensa maioria dos que têm emprego exerce tarefas perigosas, insalubres, braçais e com remuneração dezenas de vezes menor do que a sua. Qual o motivo da sua reclamação? Você trocaria sua “chatice” pela dessa gente toda? Duvido!

Você acha chato estudar. Não sabe, todavia, (ou se sabe, é muito mais egoísta e burro do que parece), que há, no mundo, mais de um bilhão de analfabetos. Que futuro essas pessoas podem esperar? Estão condenadas, sem remissão, à miséria, ao “apartheid” econômico e social, à nulidade, ao inferno na Terra.

Faculdade, como a sua? Nem pensar! Esse contingente imenso se daria por extremamente satisfeito se conhecesse, pelo menos, o alfabeto do seu idioma. Se conseguisse juntar as letras e formar as palavras mais simples. Se pudesse ler nem que fossem as placas das ruas ou os nomes e anúncios das lojas. Se lograsse a imensa “façanha” de “desenhar” seus nomes, mesmo que mediante garranchos.

Você se queixa do pouco tempo que dispõe para “diversão”. Mas o que você vê de tão divertido nas baladas que freqüenta, nos estádios de futebol a que comparece, nas conversas vazias e sem nenhum conteúdo com os amigos – que só têm caraminholas na cabeça e dois únicos pares de neurônios no cérebro – e nas outras tantas bobagens que você classifica como sendo “lazer”? Bilhões de pessoas, mundo afora, não têm acesso sequer a isso. E se tivessem o tempo livre que você tem, não o desperdiçariam dessa maneira inconseqüente e tola.

Mas você recebe outros tantos presentes diários da vida e sequer percebe. Os belos dias de sol, por exemplo. Milhões de pessoas no mundo vivem em lugares em que essa luz e esse agradável calor são raridades. E, ainda assim, agradecem por isso. Mesmo os dias de chuva são bênçãos inquestionáveis, embora você não os considere assim. Há regiões, densamente habitadas, do Planeta, em que chove reles dez dias por ano. Que festa os moradores desses locais não fariam se tivessem mais dias como estes dos quais você não raro reclama! Em Lima, por exemplo, não chove há já quatro anos.

Poderia passar horas e mais horas desfiando lista interminável de presentes que a vida lhe dá, todos os dias, mas não o farei. Deixarei a tarefa ao seu cargo, ao seu raciocínio, caso você tenha um mínimo de sensibilidade e inteligência para pensar, nem que seja uma única vez, nisso. Vamos lá, exercite seu par de neurônios!

Mas lhe darei, de graça, sem cobrar coisa alguma (aliás, como a vida o faz com os presentes que dá) alguns conselhos úteis, que você pode ou não seguir. O problema é só seu. Não tenho nada com isso.

Não fique com essa lenga-lenga de se referir, a toda hora, ao passado que, dada sua falta de memória, você acha que foi muito feliz. Provavelmente, nem foi. Mesmo que tenha sido, porém, passou. Jamais você irá recuperar esse tempo.

Não fantasie muito, também, o futuro, pois você nem mesmo sabe se terá um. Seu tempo pode estar se esgotando sem que você tenha a menor suspeita. Viva o presente. Faça, a cada dia, o melhor que puder. Aproveite cada segundo, mas com qualidade, sem queixas, reclamações ou grilos. .

Tempos atrás, li, em uma das colunas que Paulo Coelho publicou no jornal “O Globo”, o seguinte, que o escritor caracterizou como “provérbio do Ciberespaço” (mas que suspeito tenha sido escrito por ele):

O passado é história,
O futuro é mistério.
O agora é uma caixa de surpresas.
Por isso, nós o chamamos de presente”.

Entendeu a mensagem, cara-pálida?!

(Crônica escrita em resposta às queixas de uma pessoa pessimista, que encara a vida como castigo, e não como o privilégio que é).


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