Tuesday, October 10, 2017

Região de mistérios e de lendas


Pedro J. Bondaczuk



Desde quando o primeiro homem relativamente civilizado descobriu que poderia navegar, os mares vêm despertando temor e fascínio nos homens de vários tempos. Em torno das atividades náuticas foram criados lendas e mitos, dando conta de hipotéticos oceanos povoados por monstros marinhos, que, entre outras coisas, tragariam embarcações inteiras. com toda a tripulação a bordo e de uma única bocada. Fantasia, claro. Nada disso jamais aconteceu. Mas...

Águas ferventes e despenhadeiros infinitos, no local onde “o mundo acabava”, eram citados por velhos marinheiros, nas longas conversas mantidas em tavernas fumarentas, onde as narrações de pseudofeitos gloriosos, na verdade enormes bravatas, eram desfiadas, acompanhadas de generosas libações alcoólicas.

Até a histórica viagem de Cristóvão Colombo, que partindo da Europa visava a cruzar “oceanos desconhecidos” para aportar no outro lado da Terra, em Cypango (como então era conhecido o Japão), vasta região do Atlântico Norte permanecia praticamente inexplorada. Pouquíssimos marinheiros se aventuravam a navegar por essas águas. Por que? Pelo medo que os navegadores tinham do desconhecido, com seus supostos monstros e abismos sem fim. Poucos acreditavam, até, que a Terra fosse redonda. Afirmar isso soaria como um enorme disparate.

Hoje, essa área é uma das de maior tráfego mundial, tanto aéreo, quanto naval. Mas nem por isso deixa de ser centro de controvérsias entre cientistas, místicos e o homem comum das ruas, fascinado por tudo o quanto não possa ser explicado de uma forma acessível ao seu entendimento.

Dos mares que mais despertam a imaginação das pessoas, está o que banha uma área abrangendo boa parte do Golfo do México, estendendo-se por toda a costa Leste dos Estados Unidos, tendo seu limite perto das Ilhas Açores, Atlântico adentro. É a região conhecida como Triângulo das Bermudas, “Triângulo da Morte”, ou “Triângulo do Diabo” (dependendo de quem a cita), onde pelo menos 700 navios e aviões “desapareceram” nos últimos três séculos. O que causou esses desaparecimentos? A maioria dos casos jamais foi explicada e sequer destroços das naves e aeronaves desaparecidas foram encontrados.

Parte considerável desses desaparecimentos pode ser explicada pelas peculiares condições atmosféricas existentes nessa área, rota, aliás, de devastadores furacões que periodicamente atingem o Caribe e o território norte-americano, traçando rastros de destruição e mortes na sua passagem. Outra parte é atribuível a naturais falhas humanas, causas de grandes desastres em todos os meios de transporte, principalmente nos terrestres, teoricamente os mais seguros.

Há, entretanto, diversos casos que têm desafiado todas as tentativas lógicas de explicação. E que, dadas as características das ocorrências, revelam-se sumamente misteriosos. Por isso tornam-se campos férteis de especulação dos místicos, dos “videntes”, dos malucos de plantão e dos espertalhões, à espera de oportunidades para explorar a crendice dos supersticiosos e ignorantes em próprio proveito. Mais destes últimos, aliás, do que dos que buscam chegar à verdade. Malandros oportunistas se valem da superstição alheia, para auferir gordos dividendos fazendo sensacionalismo. E gente crédula e inocente, convenhamos, é o que não falta, não é mesmo?

De qualquer forma, o chamado “Triângulo das Bermudas” (que na verdade é um trapézio de lados e ângulos irregulares), tem registrado acontecimentos que à luz da ciência moderna não são passivos (ainda) de explicação lógica e racional. É bom frisar-se, todavia, que o homem, a despeito dos avanços em todas as áreas do conhecimento, ainda está muito longe de saber de tudo, especialmente quando se trata dos oceanos. Ou seja, não conhece razoavelmente nem o Planeta que habita, quando mais os mistérios do universo.

Muitos fenômenos naturais ainda estão por serem entendidos e explicados e outros tantos até por serem descobertos. O quanto há de verdade em tudo o que se diz e se escreve acerca dessa região? Até que ponto as explicações para os acidentes registrados nessas águas não são deliberadamente distorcidos, com o propósito de justificar determinadas “teorias”? O que de tão estranho e aterrador acontece ali para dar razão ao seu tétrico apelido de “Triângulo da Morte”?

Conta-se que o navegador Cristóvão Colombo tomou o contato inicial com os mistérios que cercam o “Triângulo das Bermudas” exatamente na véspera de pisar a primeira terra do Novo Mundo, após meses de viagem no mar e de enfrentar sério descontentamento entre os marujos, que não confiavam no bom termo daquela aventura, para eles irracional.

Foi pouco antes que o marinheiro que estava na gávea de um dos três barcos da expedição visse as ilhas de Crooked e Rum Cay, que teriam sido as primeiras visões de um vasto e inexplorado continente, mais tarde chamado de América. Toda a tripulação teria avistado, nessa noite tensa, estranhos clarões esverdeados na linha do horizonte, se movendo de um lado para o outro.

Para os marujos, já apavorados, e prestes a se amotinar, isso seria o prenúncio de um próximo fim iminente. Luzes semelhantes seriam posteriormente testemunhadas, séculos depois, por diversos navegadores, que escaparam dos perigos daquela área. Antropólogos modernos explicam essa visão, no caso de Colombo, como sendo reflexos de fogueiras acesas nas canoas dos habitantes das ilhas que saíam à pesca à noite. Elas não teriam, portanto, nada de sobrenatural.

Os oceanógrafos têm outra explicação para tais luzes. Afirmam que elas seriam originadas, também, por fogueiras, mas acesas pelos índios Caraíbas nas praias. E que o quebrar das ondas distorcia, tanto a cor das chamas, daí seu tom esverdeado, quanto dava a sensação ilusória de movimento. Os defensores dos Óvnis também têm sua teoria e essa é até dispensável de se declinar.

Para eles, obviamente, a luz tinha origem extraterrestre, assinalando um momento de grande importância para toda a humanidade, ou seja, a iminência da descoberta da América. Seria, pois, uma forma dos alienígenas de antecipar aquele grande momento. Tolice, claro. Tanto as ilhas Crooked e Hum Cay, como a de Guaanani, a primeira terra onde Colombo pisou e rebatizou de São Salvador (afinal, essa descoberta fora extremamente providencial para evitar motim a bordo), pertencem ao Arquipélago das Bahamas, localizando-se a Leste da que é considerada a principal.

E se esse incidente nada teve de sobrenatural, a experiência que a esquadra do navegador genovês teria em 1º de julho de 1502 seria, no mínimo, aterradora. Não tanto para ele, comandante experiente e acostumado com os caprichos da natureza e, sobretudo, do mar, mas para os 800 marinheiros da esquadra, capitaneada pelo almirante espanhol Antonio de Torres, que levava, entre seus passageiros, Juan Domingos Bobadilla.

Todos os navios dessa frota estavam carregados de muito metal precioso. Aquela fortuna mirabolante era destinada aos reis da Espanha, financiadores da expedição. Havia, entre a carga, entre outras preciosidades, uma mesa todinha de ouro, que pesava mais de três mil arráteis (1.287 quilos), maciça, inteiramente feita com o precioso metal. Tudo isso, no entanto, foi parar no fundo do Atlântico e até hoje não foi localizado e muito menos resgatado. Quem se habilita ao resgate? Voltarei certamente ao tema.


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