Friday, October 27, 2017

Bomba de tempo


Pedro J. Bondaczuk


A campanha para as eleições presidenciais brasileiras de 15 de novembro próximo, as primeiras após 29 longos anos de jejum das urnas da nossa população, deve começar a pegar fogo a partir da segunda metade do próximo mês. Por isso, candidatos e público não se impressionam com as pesquisas de opinião divulgadas até agora, que podem não estar revelando tendência alguma.

Todavia, uma coisa já começa a ficar bem clara para todos. Trata-se do fato dos partidos tradicionais, que predominaram, nas últimas duas décadas e meia na política brasileira, se mostrarem em franco declínio de popularidade. PMDB e PDS terão que fazer muita força para mudar essa situação, à primeira vista bastante adversa para a pretensão dos seus candidatos: Ulysses Guimarães e Paulo Maluf, respectivamente.

É claro que fazer qualquer prognóstico, a esta altura, quando tudo ainda é provisório e mal se encerraram as convenções partidárias, definindo postulações, alianças e apoios, é extremamente prematuro, senão ingenuidade. Muita água ainda vai rolar por baixo da ponte até as vésperas da votação, com subidas, descidas, surpresas e confirmações no ranking dos mais cotados.

Uma coisa, no entanto, parece estar clara: nenhum dos concorrentes deverá obter 50% dos votos mais um, necessários para que seja dispensado o segundo turno. É em torno dessa realidade que as estratégias de campanha dos partidos deverão girar.

Por enquanto, as disputas de bastidores acontecem acerca do precioso tempo de televisão e rádio, gratuito, que cada agremiação com representação no Congresso vai poder dispor. A tendência das eleições modernas, não somente no Brasil, como em todo o mundo, é a de concentrar toda a força da propaganda na TV, que além de atingir um número infinitamente maior de eleitores (num país que possui dimensões continentais) permite que os candidatos trabalhem com mais folga nos grandes centros, onde está concentrada a maioria dos votos.

Uma boa performance no vídeo pode levar, às vezes, um mau concorrente à vitória. E a recíproca, por sua vez, também é verdadeira. Muito político já perdeu eleição, virtualmente, por bobagens ditas no ar.

O caso mais evidente é o do senador Fernando Henrique Cardoso, em 1986, quando num debate televisionado, enrolou-se numa pergunta que lhe foi feita, acerca de suas convicções religiosas, e deixou escapar, na última hora, uma vitória que o seu partido considerava líquida e certa.

Por outro lado, convém ressaltar que esta eleição presidencial traz, embutida, uma armadilha, que pode, e deve, trazer muita dor de cabeça em 1990. Ocorre que ela deveria ser realizada simultaneamente com a renovação do Congresso, para que o futuro presidente pudesse contar com o indispensável respaldo parlamentar para governar.

Mas, para que isso ocorresse, os deputados e senadores teriam que abrir mão de parte de seu mandato, com o que eles não concordaram. Diante disso, abre-se a certeza de que o eleito (provavelmente em segundo turno) não vai contar com apoio no Legislativo para governar, qualquer que ele seja. E isto pode ser trágico, quando se sabe que ele terá que adotar medidas de emergência, diante da crise, que tende a se agravar daqui até o fim do ano, com um processo hiperinflacionário se avizinhando por aí e o País todo esperando uma solução salvadora que o evite.

Fala-se muito em negociação política. Apregoam-se pactos. Mas será que as feridas, que certamente a próxima campanha vai deixar, serão fechadas em tempo, que ressentimentos sejam deixados de lado e os partidos perdedores fechem um acordo com o vencedor? É ou não é uma bomba de tempo montada para explodir nas mãos do preferido de mais de 40 milhões de brasileiros?

(Artigo publicado sob pseudônimo na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 16 de julho de 1989)



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