Monday, October 02, 2017

Crédito para os cem dias da Nova República



Pedro J. Bondaczuk



O primeiro governo da Nova República completou cem dias ao longo desta semana e num rápido balanço dos resultados que obteve, a despeito das compreensíveis vacilações iniciais, ditadas pelo infortúnio que acometeu seu principal mentor, o presidente eleito Tancredo Neves, o saldo apurado é bastante positivo. Isto ocorreu tanto no plano político, quanto no econômico, embora seja ainda muito cedo para avaliar as conseqüências de determinadas medidas neste último.

Politicamente ocorreu, por exemplo, a legalização dos partidos ilegais, medida reivindicada há muito para que o País possa ter todas as correntes de pensamento representadas na Assembleia Nacional Constituinte.

As capitais de Estado, estâncias hidrominerais e cidades consideradas áreas de segurança nacional foram “anistiadas”, recuperando o direito de escolher, através do voto livre e soberano, os seus dirigentes.

O analfabeto, pela primeira vez em nossa história, recebeu plena cidadania e, doravante, vai ser, também, coparticipante, e não mais mero indefeso expectador, do seu próprio destino. E muitas outras conquistas políticas poderiam ser desfiadas, mostrando que nesse plano o País avançou, em apenas cem dias, muito mais do que em duas décadas anteriores.

No campo econômico, mercê do controle de preços de produtos estratégicos e de um providencial congelamento das tarifas de combustíveis e de vários serviços administrados pelo governo, a inflação, que caminhava a passos largos para índices estratosféricos, acabou sendo contida. Até mesmo apresentou regressão. É verdade que lentamente, penosamente, quase que dolorosamente.

Mas desceu de um acumulado de 12 meses de 240%, em março, para 211% no encerramento do primeiro semestre. A taxa do mês que começa amanhã será decisiva para que se possa avaliar com mais segurança se a tendência inflacionária é, realmente, declinante, ou se tudo não passou de um balão de ensaio, de uma pausa antes que o País se encaminhe para uma indesejável hiperinflação.

No correr de julho, por exemplo, teremos o reajuste dos combustíveis, sabidamente um fator tendente a “inflar” as taxas. Caso essas registrem qualquer coisa abaixo dos 10,3% do mesmo período do ano passado, a sociedade pode se preparar para dias realmente melhores. Os salários não serão erodidos, o consumo vai melhorar e haverá mais empregos.

Aí, certamente, haverá maior crédito por parte dos hoje céticos cidadãos na possibilidade da inflação ser vencida. E o governo vai ganhar um novo aliado nessa guerra sem quartel à alta dos preços: a confiança plena da população, hoje ainda um tanto descrente dessa possibilidade, tantas foram as vezes que foi lograda no passado.

Mas num ponto as autoridades da Nova República frustraram uma classe que, até aqui, pagou todos os ônus dessa crise que ela não causou, originada de uma política com a qual nunca esteve de acordo e que só lhe impôs sacrifícios e privações: as dos operários.

Tancredo Neves, logo após eleito, prometeu, solenemente, não exigir mais qualquer espécie de sacrifício do trabalhador. José Sarney ratificou esse compromisso há poucos dias. Mas em não reajustando a tabela de descontos do Imposto de Renda na Fonte, a tornando compatível com os reajustes salariais, voltou a penalizar justamente a quem o governo dizia que não teria ônus sobressalentes a pagar, pela aventura do nosso “milagre econômico”.

Mal o salário foi corrigido (e não aumentado), já está sendo corroído por uma despesa inesperada, com os descontos destinados a cobrir os estratosféricos déficits do Tesouro. Correm rumores de que a tendência das autoridades econômicas é manter a atual tabela até setembro. Ou seja, pelo menos até lá, os operários continuarão a ser penalizados, quando o justo seria que houvesse, na verdade, recomposição dos seus ganhos.

O que se espera é que o governo considere o ônus político de uma medida dessa natureza e que busque outros caminhos para cobrir os rombos de seu orçamento. Isto para que todo um projeto, que vinha caminhando até que razoavelmente bem, até aqui, não acabe comprometido pelo descumprimento de uma promessa, a principal de todas, feita publicamente a toda a sociedade. E que, com isso, a Nova República não fique desprovida do seu principal capital: a credibilidade.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 30 de junho de 1985).



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