Céu sem fronteiras
Pedro J. Bondaczuk
A imaginação, se levada para
o lado negativo, deixa de ser nossa principal aliada e fonte de toda
a criatividade, para se transformar num tormento de gigantescas
proporções. Por exemplo, às vésperas de enfrentar alguma situação
desagradável, da qual não possamos fugir, nossa tendência é
fantasiar o que ainda não aconteceu e projetar na mente sofrimentos
e conseqüências terríveis.
Quando, finalmente, encaramos
o que nos afligia, percebemos, surpresos, que aquilo não era tão
ruim e trágico quanto imaginávamos que seria. Ou seja, é como o
povo freqüentemente diz: “o diabo não é tão feio quanto o
pintam”. Por isso, devemos, sim, dar asas à imaginação, mas
apenas nas coisas positivas.
Nas situações adversas,
mandam o bom-senso e a prudência, devemos dar ouvidos, única e
exclusivamente, à razão. Agindo assim, evitaremos sofrimentos
inúteis e desnecessários e manteremos o desejável equilíbrio
psicológico e emocional.
Se é verdade que a
imaginação, mal direcionada e utilizada sem critério e sabedoria,
pode se transformar em terrível adversária para nós, se usada com
inteligência e tirocínio, torna-se poderoso instrumento que nos
leva a operar maravilhas.
Distorcida, transforma-se em
potentíssima lente de aumento, que amplia, desmesuradamente, os
males e os perigos. Tende a nos fazer ver, por exemplo, uma formiga
como se fosse um elefante e este, como um dinossauro.
Todavia, a imaginação sadia
e bem direcionada não tem limites. Foi, é e sempre será a fonte de
toda a criatividade, que nos impulsiona ao progresso e às grandes
realizações. O que seria das artes sem esse fantástico
ingrediente? E das ideias, da ciência e da tecnologia? Nada, não é
mesmo? Seu alcance é ilimitado e nos torna poderosos, muito mais do
que possamos supor.
O “cenário”, contudo, –
embora não seja fator determinante – ajuda a darmos asas à
imaginação. Por exemplo, em uma noite calma e clara de luar e de
céu estrelado, nosso pensamento viaja, livre e solto, por mundos
desconhecidos, por entre as constelações de estrelas (das quais
somos, literalmente, pó) vislumbrando planetas que talvez sequer
existam (provavelmente), mas cujas imagens, em detalhes, consegue
criar em nossa mente.
O mesmo já não ocorre –
não pelo menos com a mesma facilidade – em dias nublados e
cinzentos, nos quais imperem a melancolia e a saudade. Essas ocasiões
são mais propícias à introspecção, a calmas e preguiçosas
“viagens” pelo nosso interior, descobrindo (ou redescobrindo)
imagens guardadas no fundo do cérebro por anos ou até por décadas
e que sequer nos dávamos conta que estavam ali.
Paulo Mendes Campos descreve,
numa de suas crônicas, o cenário ideal para a imaginação voar
livre e veloz. Antes de citar o que escreveu, cabem, aqui, algumas
considerações sobre esse escritor mineiro, do qual sou grande
admirador e que considero injustiçado, se for levada em conta a
qualidade da sua obra.
Curiosamente, ele relutou
muito em abraçar o que sempre foi a sua grande e nítida vocação
(para os outros, não para ele) a literatura, embora tenha sido um
literato precoce. Seu sonho, na verdade, (nunca realizado), era o de
ser aviador. Tinha fascínio por aviões e, não tanto por eles, mas
pela altura, pelo céu, principalmente quando azul e sem nuvens.
Estudou Odontologia, Veterinária e Direito, mas não concluiu nenhum
desses cursos.
Foi parar no jornalismo.
Primeiro, atuou como repórter (e dos bons). Depois, cansou de bater
pernas nas ruas e ganhou uma coluna de crônicas diárias, o que lhe
possibilitou não precisar mais sair da redação à cata de
notícias. Mostrou-se, nessa função, um redator sumamente criativo
(e imaginativo), comparável a seus colegas da chamada “geração
mineira” da Literatura, como Otto Lara Resende, Murilo Rubião,
Fernando Sabino e Hélio Pellegrino.
Sem exagero algum, comparo
Paulo Mendes Campos ao “rei dos cronistas” brasileiros, Rubem
Braga (este, todos sabem, era capixaba) embora cada qual, claro, com
seu estilo característico. Quando, no início da adolescência,
cursava o ginásio, na cidadezinha de Cachoeira do Campo, um padre,
que era seu professor de Português, previu: “Você ainda será
escritor”. Mas o menino imaginativo não queria nem saber das
letras. Sonhava em pilotar aviões, de todos os tipos e tamanhos, o
que nunca conseguiu.
Para nossa felicidade (minha,
particularmente, que o tenho como um dos meus referenciais na
crônica), seu velho mestre ginasial acertou em cheio nas previsões.
Paulo Mendes Campos acabou se tornando escritor (e que escritor!).
Tive a felicidade de ler a maioria dos 24 livros que publicou. E
tenho uma coleção enorme das suas crônicas publicadas na Revista
Manchete.
Em uma delas, intitulada “De
um caderno cinzento”, datada de 17 de agosto de 1967, pincei este
trecho que se refere ao cenário ideal para as “viagens” da
imaginação: “Céu azul não conhece fronteira de sombra; céu
azul é indispensável antes de tudo aos cegos; azul do céu não é
cor, mas uma qualidade do mundo, uma luminosidade apreensível por
todos os sentidos, fragrância, convivência mais delicada, concerto
de sons, transparência do universo”.
Como se vê, dei voltas e mais
voltas, como o próprio mundo dá, e retornei ao ponto de origem
destas descompromissadas divagações. A imaginação é, mesmo,
assim: veloz, imprevisível e não raro dispersiva e caótica. Por
isso, precisa ser direcionada, e sempre, para o lado positivo e belo
da vida. E tem, por isso, como campo preferido de atuação, o
espaço, ou seja a imensidão sem limites, o céu sem fronteiras.
Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk
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