Monday, August 11, 2014

Crise sem fim na educação

Pedro J. Bondaczuk

A educação é valor básico e imprescindível do homem, certo? Certíssimo! Creio que não há quem conteste esta constatação, para lá de óbvia. Nessa condição, tem que ser, portanto, prioridade das prioridades, primeiríssima, absoluta e insubstituível de qualquer sociedade que se preze (e não me refiro apenas a governos, mas às pessoas que a integram), caso se deseje não apenas progredir material e espiritualmente, mas, sobretudo, sobreviver. Sem ela, o homem não é nada. É mais frágil e vulnerável que a maioria das feras broncas. O filósofo norte-americano, Will Durant, dedica a esse processo essencial e imprescindível todo um capítulo em seu memorável livro “Filosofia da vida”, tema e abordagem a que me proponho a comentar, hoje e nos próximos dias, e refletir com você, caríssimo leitor. Advirto, todavia, que minha visão a propósito não é a de especialista na matéria, que não sou, mas de mero observador, embora atento ao o que ocorre ao meu redor e diretamente interessado no assunto que também me diz respeito.

A educação está em crise e não é de hoje. Pode parecer afirmação acaciana, mas não é. Sempre esteve na corda bamba. Sua ostensiva inadequação é a principal causa de violência e de descontentamento social, que não raro resultaram e resultam em catástrofes. Os problemas passados e presentes que determinam a crise centram-se nos mesmos motivos: na lentidão de educadores –, no caso pais, mestres, líderes religiosos, filósofos etc. – em acompanharem a evolução humana em outros campos de atividade, que, aliás é mais (se não exclusivamente) material do que espiritual, aspecto em que tenho observado, salvo engano, até certa estagnação, quando não retrocesso. Antes de qualquer tentativa de detectar as causas da interminável crise educacional é necessário definir alguns conceitos.

Will Durant vai ao cerne, à raiz do significado, ao afirmar: “A educação é a causa de nos comportarmos como seres humanos. Não nascemos humanos; nascemos uns animaizinhos malcheirosos e grotescos; tornamo-nos humanos, assimilamos a humanidade pelos mil canais por onde o presente recebe a herança cultural cuja acumulação, preservação e transmissão colocam o homem de hoje, apesar do peso morto dos deficientes, em plano mais alto que o atingido em qualquer outro momento da história”. Educar, portanto, significa moldar o indivíduo, como um diligente escultor molda uma escultura, empenhando-se em torná-la a mais perfeita possível, de sorte a conferir a este animal tão frágil o que lhe dá superioridade sobre os demais seres viventes: racionalidade, ou seja, “humanidade”.

A educação, portanto, não se restringe ao ensino nas escolas ou ao adestramento para o exercício de atividades essenciais para sua sobrevivência e a do grupo que integra. Não é “só” isso, claro, posto que seja “também” isso. É um processo global, holístico, envolvendo corpo e mente, intelecto e espírito, enfim, a totalidade do homem. Hoje, todavia, até por questão de quantidade de educandos (ou seja, todos nós, já que nos educamos, ou deveríamos nos educar do nascimento à morte), a educação está anos-luz distante do minimamente aceitável, ou desejável, quanto mais do ideal.

Cristalizada em dogmas,  não acompanha, reitero, a evolução da humanidade – da passagem de uma sociedade industrial para outra de informação, por exemplo. Não satisfaz, portanto, as necessidades sociais, em um mundo assoberbado por novas questões e crescentes problemas. O fenômeno ocorre tanto no Ocidente, quanto no Oriente. Verifica-se quer em países altamente evoluídos política, econômica, social e tecnologicamente, quer em Estados carentes, até inviáveis (nestes, logicamente, de forma mais intensa). É necessário exigir e trabalhar pelo seu resgate, com enfoque que é imprescindível: ético e humanístico. 

É preciso que valores duramente conquistados ao longo de milênios – como respeito, lealdade, honra, fidelidade, amor, amizade e solidariedade, entre outros – sejam resgatados (alguns se perderam), ampliados, consolidados e transmitidos, para que não se transformem, como hoje, em palavras vazias de significado, talvez pomposas, posto que despidas de conteúdo. Roger William Riis lembra que "somente nós, entre as coisas vivas, descobrimos a Beleza, a amamos e criamo-la para os nossos olhos e para os nossos ouvidos".

Nessa mesma linha de raciocínio, o autor teatral Thornton Wilder, na peça "Our Town" (Nossa Cidade), coloca na boca de um personagem: "Oh, Terra, és maravilhosa demais para que alguém te perceba. Acaso os seres humanos têm consciência da vida enquanto vivem? Da vida em todos os seus minutos?". Certamente que não têm.  O ideal de beleza, de cultura, de harmonia e de inteligência plena tem que ser cultivado no dia-a-dia, por sua transcendência e importância e transmitido às novas gerações, para que estas façam o mesmo, em um processo contínuo e sem fim. Essa transmissão também integra o elenco desse processo holístico conhecido, genericamente, como educação. 

Para o líder budista japonês Tsunessaburo Makiguti, fundador da organização Sokka Gakai, educar é, principalmente, “criar, consolidar e transmitir valores”. É o que enfatiza no livro "Educação para uma vida criativa": “A criação de valores é, na realidade, a essência da natureza humana. Quando elogiamos pessoas por sua 'força de caráter' estamos, na verdade, reconhecendo sua capacidade superior de criar valores", acentua em determinado trecho. A exemplo do líder japonês, entendo que um dos pilares da educação, se não o principal, é não somente a criação, mas a consolidação, perpetuação e transmissão dos citados valores.Voltarei, certamente, ao assunto.


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