Tuesday, August 12, 2014

Aprender a pensar

Pedro J. Bondaczuk

A educação é um processo holístico. É um todo.  Não pode ser, portanto, confundida (embora amiúde seja) com as partes que a integram, como a instrução ou o adestramento físico e ou mental, por exemplo. É muito mais ampla e completa e não se limita a determinado tempo. Abrange toda nossa vida. Tem etapas que se desenvolvem no lar, na escola, na igreja, no trabalho etc. Todavia estas não são separadas ou estanques, mas simultâneas. Ao mesmo tempo que aprendemos com nossos pais princípios básicos de higiene, cortesia e civilidade, nos valemos do conhecimento acumulado por gerações nas escolas, preparando-nos para exercer profissões para as quais tenhamos habilidade e formos devidamente habilitados.   

O filósofo norte-americano Will Durant, escreveu, a propósito, em seu clássico “Filosofia da vida”: “A educação tem que produzir homens completos; deve desenvolver todas as forças criadoras existentes no indivíduo, abrindo-lhe o espírito para todos os aspectos amenos e instrutivos do mundo. Um homem sobrecarregado de milhões, mas para quem Beethoven, Corot ou Thomás Hardy, ou o fulgor de um ocaso do outono significam apenas sons e cor, não passa de matéria prima dum homem; metade do mundo conserva-se fechada às janelas embaciadas do seu espírito”. Esse tipo de educação que citei, o holístico, abrangendo tudo o que possa ser potencialmente útil, à qual Will Durant se referiu, de forma tão didática, é o ideal.

A experiência me diz que poucos têm acesso a ele. À maioria é proporcionada uma educação mais formal (e parcial), o que finda por lhe determinar papel secundário na sociedade, para cuja participação plena não está devidamente preparada. Durant observa, ainda: “Uma educação meramente científica transforma o educado em mero instrumento; deixa-o estranho à beleza, afasta-o da sabedoria”. Ou seja, seu paciente tem papel secundário previamente determinado: o de cauda, jamais de cabeça. O de instrumento e não o de quem o maneje.

Will Durant amplia essa observação sobre o processo educacional que, reitero, tem que ser holístico, completo, total e absoluto para satisfazer seu principal objetivo: conferir ao homem sua humanidade, ou seja, racionalidade. Escreve: “Educação não significa tirar diplomas de perícia em comércio, em mineração, em botânica, em jornalismo, ou epistemologia; significa, através da absorção da herança moral, intelectual e estética da raça humana, alcançarmos o controle tanto de nós mesmos como do mundo exterior; significa escolhermos o melhor como o associado do nosso corpo e do nosso espírito; significa aprendermos a adicionar a cortesia à cultura, a sabedoria ao conhecimento e a indulgência à compreensão. Quando produzirão nossos colégios homens assim?”

Sim, caro leitor, quando nossas escolas, nos mais variados níveis, poderão produzir esse tipo de educando? Hoje, infelizmente, um aluno absorve muito mais hábitos e comportamentos ditados por colegas do que os princípios e conhecimentos que seus mestres se propõem a transmitir. A esse propósito, o filósofo Ralph Waldo Emerson observou, em tom de indisfarçável decepção: “Manda teu filho para a escola e os colegas o educarão”. Porventura, não é o que acontece? Portanto, não há nenhum exagero em afirmar que a educação está em crise. Sempre esteve. E ela é interminável, por estar distante do que seria o ideal.

Enfatizo e reitero que o aprendizado que se obtém na escola é apenas parte da educação e não toda ela, como tantos, erroneamente, interpretam. E esses centros de ensino, salvo exceções que desconheço, cometem um pecado mortal. Os que os comandam e ministram conhecimentos não entendem sua parcialidade ou não a aceitam. Um dos maiores educadores brasileiros, Paulo Freire, assim se expressou a respeito: “Um dos grandes pecados da escola é desconsiderar tudo com que a criança chega a ela. A escola decreta que antes dela não há nada”.O poeta Mário Quintana expressou isso de uma forma, digamos, menos técnica, posto que mais saborosa. Afirmou, em entrevista que deu ao jornalista Hermes Rodrigues Nery, em julho de 1988:”Para mim as crianças até os sete anos são muito inteligentes; depois, os professores, em vez de transformar as crianças em bons adultos, adulteram-nas. Estragam tudo”.

Estou plenamente de acordo com o saudoso ex-reitor e fundador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Zeferino Vaz, quando disse, em entrevista ao jornal Correio Popular: “Educar é desenvolver no aluno a capacidade de pensar. O cérebro de um estudante não é um cofre que se deve encher, mas sim uma tocha que é preciso acender”. Afinal, queiram ou não, concordem ou discordem, são as idéias que, de fato, governam o mundo e comandam sociedades, povos e civilizações. Muitas são nefastas e destrutivas e impostas à força, não raro a poder de armas. Outras impõem-se por si sós, por sua nobreza, eficácia e poder.

Pessoas são mortas, mas ninguém tem o poder de matar idéias, quando construtivas e necessárias. Todos as temos mescladas. Algumas são criadas por nós, outras transmitidas pela tradição através da educação e, outras tantas, nos são impostas, muitas vezes a ferro e fogo. Devemos fazer periódico exame de consciência, se possível diário, e administrar o que pensamos. O escritor Robert Musil nos adverte, com pertinência: “Tudo o que se pensa ou é afeto ou aversão”. Cultivemos, pois, o primeiro desses tipos de pensamento e evitemos o segundo. Só devemos, na verdade, ter aversão à violência, ao ódio, às injustiças e à corrupção. No mais... é mister cultivar afetos, sem limites ou restrições.


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