Friday, August 01, 2014

Crime e castigo


Pedro J. Bondaczuk


O vazio de poder, verificado, atualmente, no Líbano, onde o gabinete de unidade nacional mostra-se mais desunido do que nunca e as virtuais autoridades (o primeiro-ministro Rashid Karami e o presidente Amin Gemayel) praticamente não detêm qualquer condição de decisão, deverão trazer, para esse país, doravante, sérias complicações.

Como uma decorrência natural das atrocidades cometidas pelos dois seqüestradores do Boeing 727 da TWA, em 14 de junho passado, especialmente do assassinato do mergulhador da Marinha norte-americana, Robert Stethen, a Casa Branca está disposta a levar às últimas conseqüências sua determinação de punir esses criminosos.

Até aí, o presidente Ronald Reagan está coberto de todas as razões possíveis e imagináveis. Se os autores de seqüestros ocorridos no ano passado tivessem sido levados às barras dos tribunais e sentenciados por seus delitos, com todo o fanatismo que move esses extremistas, dificilmente a ocupação intempestiva do Boeing da TWA teria acontecido.

Crime é crime, quer seja cometido no Líbano, quer nos Estados Unidos, no Zimbabwe ou em Papua-Nova Guiné. Não importa. Existe um acordo internacional acerca desses seqüestros, do qual os libaneses são signatários. Se eles, em virtude da situação peculiar do país, vivendo uma suicida guerra civil de mais de dez anos de duração, não têm condições de fazer com que os piratas aéreos paguem por sua infração, que os deportem para os EUA, para que sejam submetidos aos rigores da lei.

A impunidade e, principalmente, a certeza dela, é um estímulo para que novas sortidas terroristas sejam perpetradas e que muitas vidas, de pessoas inocentes, sejam colocadas em risco. O que nos parece contraproducente, contudo, e até extremamente cruel, é que os países industrializados, politicamente estáveis e socialmente avançados que, a rigor, muito pouco (ou quase nada) fizeram para prestigiar as autoridades libanesas constituídas, punam, agora, todo o Líbano, com um rigor até extremado.

O bloqueio, quase decidido, do Aeroporto de Beirute, medida que poderá ter o apoio, na próxima semana, da Alemanha Ocidental, Gr~-Bretanha, França, Itália, Japão e Canadá (além dos EUA, autores da proposta) é sumamente injusto, quando se sabe que, num incidente parecido, ocorrido em 8 de dezembro do ano passado com um Airbus A-300 do Kuwait, desviado para Teerã, nada se fez contra o governo do Irã.

Naquela oportunidade, dois norte-americanos, e não apenas um, como agora, foram mortos. E os iranianos, ostensivamente contrários a tudo o que diga respeito aos Estados Unidos – a quem eles chamam de “Satã”- foram, ao menos indiretamente, responsáveis por aquele incidente.

O aeroporto de Teerã continuou funcionando normalmente e os vôos de empresas ocidentais apenas foram suspensos, uma medida de auto-segurança, quando o Iraque intensificou seus bombardeios àquele campo de pouso.

Se o Líbano tem hoje um governo fraco, se todas as determinações daquele país vêm de Damasco, se as milícias libanesas possuem muito mais força e credibilidade do que o Exército nacional, os norte-americanos têm a sua parcela de culpa. Por terem abandonado à própria sorte aquela sociedade conflagrada, após serem vítimas de um atentado de carro-bomba contra seu quartel-general.

Mas seus fuzileiros navais são soldados. Sabiam, portanto, que num país em guerra civil, em franca desagregação, o que eles poderiam esperar era exatamente isso. Ou seja, bombas, tiros e toda a sorte de represálias. Se antes de deixarem o Líbano tivessem fortalecido seu governo, hoje não teriam que passar por essa estranha situação de precisarem punir centenas de milhares de inocentes apenas para poder atingir algumas dezenas de culpados.

O que virá depois dessa represália (e nem é preciso ser profeta para prever) será o de sempre. Ou seja, mais seqüestros, mais carros-bombas e mais ameaças a vidas e propriedades. Até onde essa escalada poderá chegar?

(Artigo publicado na página 9, Internacional, do Correio Popular, em 4 de julho de 1985).


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