Tuesday, June 10, 2014

Um grande debate nacional

Pedro J. Bondaczuk

Houve tempo em que os programas de TV, de cunho político, principalmente os que apresentavam entrevistas, isto é, mostravam uma imagem estática e até imprópria para o vídeo, eram considerados desperdícios de tempo. Por razões muito especiais, que não cabe aqui assinalar, o País vivia em estado letárgico, como que desinteressado da própria sorte. Ou então, certamente não acreditando naquilo que as figuras públicas tinham para dizer.

Atualmente, e isto de uns quatro anos para cá, a situação está diferente. Os programas de entrevistas alcançam excelentes índices de audiência, às vezes, até, comparáveis aos dos grandes shows e das transmissões esportivas. O que mudou? Foram os políticos, agora com mensagens novas, num momento muito especial da vida nacional? Foram os canais de TV, que entregaram as entrevistas a apresentadores mais argutos, que perguntam às autoridades o que o povo deseja saber? Foram os telespectadores, que despertaram de um longo sono letárgico para a dura realidade da nossa autogestão? Provavelmente, os três.

É bom que se afirme que, até 1980, era praticamente vedado o acesso de políticos às emissoras de televisão. A Lei Falcão agravou isso, em vésperas de eleições, determinando que a campanha gratuita dos partidos fosse feita mediante simples “slides” mostrando fotos (idênticas às exigidas em documentos), acompanhadas, apenas, de um breve enunciado dos respectivos currículos.

Um dos grandes precursores, para que tal situação começasse a mudar, foi, sem dúvida alguma, o apresentador e crítico de TV Ferreira Netto  Esse jornalista, que além de extraordinário faro para notícias, de uma argúcia muito grande ao entrevistar seus convidados e de uma imagem bonachona, muito do agrado do telespectador médio, sempre foi um perito em pautar seus programas. Por isso, seus convidados, via de regra, eram figuras sobre as quais sevoltava o foco da curiosidade popular.

Nos três canais em que passou (isso sem contar a extinta TV Tupi_, Ferreira arrebanhou uma surpreendente audiência, levando-se em conta, principalmente, o horário em que suas entrevistas iam ao ar, geralmente em alta madrugada. Ele foi o primeiro a promover um debate político na TV em véspera de eleições. Aberto o caminho, outros vieram no seu encalço, o que não é demérito algum.

Hoje, praticamente todos os canais têm algum programa onde a vedete não é a figura do entrevistador (como muitas vezes ocorria no passado), mas quem sempre deveria ser, ou seja, o entrevistado. A Rede Bandeirantes, por exemplo, tem o “Canal Livre”, às segundas-feiras e a “Crítica e Autocrítica”, aos domingos. Na Record, Alberto Helena Junior, todas as noites, entrevista alguma personalidade política, nos três níveis administrativos, ou seja, municipal, estadual ou federal. Convidados, também, não faltam na caçula das nossas emissoras, a Rede Manchete, que além do “Debate” das sextas-feiras, ainda leva ao ar, aos domingos, comandado por outro precursor desse tipo de programação, o jornalista Roberto D’Ávila, o “Diálogo”. Na Rede Globo, diariamente, logo pela manhã, no “Bom Dia Brasil”, alguma personalidade do mundo político ou da área administrativa dá o seu recado. E a Rádio e Televisão Cultura não deixa por menos, apresentando vários programas desse tipo, dos quais destacamos, tanto pela sua concepção quanto pela forma dinâmica de apresentação, o “Vox Populi”.

O comando de bons entrevistadores (Ferreira Netto, Alberto Helena Junior, Belisa Ribeiro, Roberto D’Ávila, apenas para mencionar alguns) é, sem dúvida, um dos fatores do sucesso das entrevistas de cunho político. Mas temos de levar em conta, também, o nível mais elevado de conscientização popular. Hoje o brasileiro demonstra maior desejo de saber o que se passa com o seu país, quais os problemas que terá pela frente, o que precisará fazer para que a nação retome o caminho do desenvolvimento e se solidifique como uma sociedade,equilibrada, justa e ordeira.

Os canais de televisão (assim como outros meios de comunicação) apenas refletem o que pensam os brasileiros (embora alguns obstáculos, que preferimos não abordar nestas considerações, impeçam esses pensamentos de serem retratados com maior fidelidade). Com todos os viciosa e defeitos, fartamente apontados, ainda assim a TV brasileira evoluiu para algo mais nobre do que mero instrumento de recreação acessível e barata a quase todas as camadas. Junto com um maior entendimento dos objetivos nacionais, por parte da classe política, esse hoje indispensável veículo de comunicação também passou a entender que está na hora de assumir um novo papel.

Uma nação não é composta apenas de território,governo e povo. Precisa ter um conjunto de objetivos que uma a todos, num esforço comum, para a sua consecução. E os deste país começam a se delinear (embora ainda confusamente na cabeça de alguns, ainda impressionados por vazias pregações de grupos radicais, eu pretendem desvirtuar nossos anseios e desviar essa sociedade dos rumos que ela traçou). Esses programas, que felizmente estão se tornando rotina na televisão, de forma serena, equilibrada e sensata, levam o brasileiro a repensar seu futuro. A conhecer, analisar, debater e escolher caminhos. A transformar um país bastante jovem e promissor, numa autêntica nação.

(Comentário publicado na página 18, editoria de Artes, do Correio Popular, em 27 de abril de 1984).


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