Sunday, June 15, 2014

De incidente em incidente...


Pedro J. Bondaczuk


Os Estados Unidos, que deslocaram para o Golfo Pérsico o mais extraordinário efetivo bélico naval já concentrado num só lugar desde a Segunda Guerra Mundial, acabam de protagonizar outro incidente armado com o Irã. Desta feita, dois helicópteros MH-6, idênticos aos que torpedearam o navio "Iran AJR", dias atrás, incendiaram duas lanchas velozes iranianas, numa escalada quantitativa do conflito nessa zona, que desde 17 de maio passado, somente se alastrou.

Até a ocasião em que a fragata norte-americana "USS Stark" foi atingida por um Exocet do Iraque, a conflagração tinha entrado num compasso mais lento. Os ataques a petroleiros tinham diminuído e os bombardeios a cidades até tinham cessado por completo.

É verdade que os persas estavam virtualmente inviabilizando a navegação de navios-tanques do Kuwait, a quem acusavam de prestar assistência econômica ao seu adversário. Foi então que o presidente Ronald Reagan resolveu intervir, embaralhando de vez a cabeça de todo o mundo e levando turbulência maior a uma zona por si só agitada.

Na época, o escândalo "Irã-contras" estava no auge, com revelações após revelações de envio de armas norte-americanas ao regime dos aiatolás. Subitamente, os "ventos" da Casa Branca voltaram a mudar de rumo. Passaram a soprar contra Teerã. Haverá novas mudanças? Para onde eles podem se virar?

Ameaças, dos dois lados, sucederam-se. Das palavras para os atos foi só um pulo. Afinal, não é assim que nascem as grandes guerras? Num piscar de olhos, quando a opinião pública de "Tio Sam" se deu conta, lá  estava mais uma vez o país metido em outra formidável confusão. Ao que consta, a solução do conflito nessa zona tão estratégica não passa pelo recurso das armas. Pensar ao contrário não passa de insensatez.

A interferência norte-americana, a favor virtualmente do Iraque, somente conseguirá unir ainda mais os persas em torno dos aiatolás. O crítico até se atreve a dizer que se não fosse a conflagração de sete anos nessa região, o regime iraniano já teria caído de maduro. Afinal, ele significa um recuo, em termos institucionais e econômicos, para o "ex-gendarme do Golfo". Mas o patriotismo, o nacionalismo falam muito mais alto, em qualquer lugar, do que diferenças internas. Isto já está mais do que provado.

A médio prazo, as perspectivas na "jugular do petróleo" do Ocidente não são nada animadoras. Choques, como o informado ontem pelo Pentágono, tendem a ser mais freqüentes. E a cada novo cadáver que surgir, mais fundo ficará o fosso dos antagonismos a ser ultrapassado.

Uma escalada, como a que está se verificando sob as vistas da comunidade internacional, pode ser imprevisível. Não que o Irã enfrente os Estados Unidos de igual para igual ou represente risco real para a superpotência, pois isto é impossível. Mas sabe-se lá que seqüelas essas escaramuças poderão deixar e a que custo. Vale a pena essa "diplomacia dos canhões?"


(Artigo publicado no Correio Popular de 9 de outubro de 1987).


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