Saturday, March 15, 2014

Prêmio à perseverança



Pedro J. Bondaczuk



A primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, vai reparar, amanhã, em Pequim, uma das maiores injustiças registradas na história contemporânea e, ao mesmo tempo, a Grã-Bretanha irá se desfazer de uma de suas derradeiras colônias, resquício de um monumental império do passado "onde o sol jamais se punha", tal era a sua extensão. A "Dama de Ferro" vai assinar, com toda a pompa que o momento exige, um acordo devolvendo à China, dentro de 13 anos, a posse de Hong Kong, em poder dos ingleses desde 1842.

Cabe aqui recordar um pouco de história para situar melhor o leitor. Afinal, o noticiário do dia a dia nada mais é do que um registro histórico do quotidiano. Hong Kong, que no idioma chinês quer dizer "córrego suave", passou ao domínio da Grã-Bretanha como parte de uma indenização cobrada à China por sua derrota na chamada "Guerra do Ópio". Esta teve início em 1840, mas o interessante é a razão que levou ambos os países a esse conflito desigual.

Na metade do século passado, as exportações de produtos chineses para o Ocidente excediam em muito suas importações. Principalmente a Companhia Britânica das Índias Orientais apresentava enorme desvantagem em sua balança comercial em relação ao império da China. Para compensar essa inferioridade, porém, seus hábeis negociantes tiveram uma "idéia brilhante", digna dos mais cavernosos chefes da Máfia. Ou seja, resolveram introduzir (ilegalmente, é claro), o ópio inglês na China, para satisfazer aos inúmeros viciados lá existentes.

A medida, como seria lícito de se supor, despertou a ira das autoridades imperiais chinesas que, numa ação até de autodefesa, ordenaram a destruição da perniciosa mercadoria. Foi o quanto bastou para o governo britânico, cujo império estava em franca expansão e que desejava apenas um pretexto para anexar uns quilômetros quadrados de terras a mais ao seu patrimônio, declarar guerra à China. É claro que os chineses não tinham qualquer chance de vencer o conflito, como de fato não venceram.

Batidos no campo de batalha, tiveram que ceder Hong Kong aos britânicos e ainda, de "lambugem", pelo fato de terem sido agredidos, pagaram indenização de US$ 21 milhões. Não se trata, portanto, de nenhuma extraordinário benevolência da Grã-Bretanha devolver à China o que sempre, por direito, lhe pertenceu! Aliás, a cessão de Hong Kong seria confirmada, anos depois, através de nova indenização oriunda de outra guerra, também nada abonadora para os ingleses, que foi a dos "Boxers", no raiar deste século, em 1900.

Por tudo o que foi exposto acima, a cerimônia de amanhã, em Pequim, terá um sabor muito especial para os chineses. O do reconhecimento do seu novo "status" como nação, com a qual, agora, as coisas são tratadas em pé de igualdade e não mais com a subalternidade de apenas poucas décadas atrás. Não resta dúvida que é uma conquista da perseverança oriental!


(Artigo publicado na página 12, Internacional, do Correio Popular, em 18 de dezembro de 1984).

Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk     

No comments: