Tuesday, December 24, 2013

O Cellini escritor

Pedro J. Bondaczuk

O sucesso de Benvenuto Cellini, como escritor, foi tão assombroso, ou mais, do que o êxito que obteve como ourives incomparável e como escultor que rivalizou com os maiores mestres do gênero, como Michelangelo Buonarroti, por exemplo. Seu livro autobiográfico, “Vita”, surpreendeu, pelo inusitado, mas não apenas por isso. É impossível não admitir seus méritos literários, embora nem tudo o que essa autobiografia contém seja rigorosamente verídico. É certo que Cellini descreve, sem omitir nada e nem fazer concessões, suas desvairadas paixões. É verdade que relata, em minúcias, o que o agradou, mesmo o que era tido e havido (e de fato era) contrário à moral e aos bons costumes e o que o desagradou, neste caso para tentar justificar alguns dos seus atos violentos e criminosos, que são injustificáveis.

Todavia, “Vita”, ao tratar da arte de Benvenuto, contém páginas e mais páginas de auto-elogios e de megalomaníaca auto-louvação. Nessa obra, detecta-se, sem nenhum esforço ou dúvida, um paranóico provavelmente incurável, um sujeito convencido que era Deus, ou quase. O ensaísta francês, Paul de Saint-Victor, assim se refere a esse aspecto: “Nunca a vaidade foi tão feroz: imaginemos um pavão armado do bico e das garras de uma ave de rapina. Tudo deve ceder e curvar-se ante ele. Só ele tem gênio, a glória e a ciência infusa. Não contesta o talento de seus rivais, até o mais ilustre: nega radical e absolutamente. A própria Antiguidade só vale para ressaltar sua obra”. Como se vê, era mais do que simplesmente convencido, orgulhoso e/ou arrogante. Era o megalomaníaco levado ao extremo da megalomania.

No entanto, “Vita”, a despeito destas e de tantas outras extravagâncias (ou talvez por causa delas) é, não se pode negar, o que a enciclopédia eletrônica Wikipédia classifica (com razão) “um dos mais singulares e fascinantes livros jamais escritos – com passagens verídicas e outras fantasiosas, crimes, anjos e demônios – na que é, certamente, a mais importante autobiografia da Renascença”. E eu acrescento: é das mais originais e importantes de todos os tempos. Exagero meu? Longe disso!

Pergunto: quantos livros você conhece, incrédulo leitor, não importa de    qual gênero, escritos há quase 500 anos, que sobreviveram ao tempo e ao esquecimento e que despertam invulgar interesse ainda hoje? Dos raríssimos que possam existir, caso exista algum (não me lembro de nenhum), quantos são autobiografias? No entanto... “Vita”, segue sendo traduzido para inúmeros idiomas, adaptado por renomados escritores e lançado por diversas editoras, sem nunca encalhar nas prateleiras das livrarias. Já imaginaram se esse sujeito ególatra e megalomaníaco estivesse vivo e pudesse testemunhar tamanho êxito da obra que escreveu? Alguma coisa de atrativo o livro deve ter, não é mesmo?. E, de fato, tem, embora eu seja incapaz de definir o quê.

Em “Vita”, Cellini, praticamente, se autocanoniza, como uma espécie de santo, a despeito dos crimes e vícios que não tem pudor em confessar. Mas faz isso com estilo, com refinamento, com um poder de convencimento tamanho, que não duvido que muitos leitores, através dos séculos, tenham acreditado piamente nesse feroz e implacável desfile de ilimitada vaidade, entendendo que os “méritos” tão auto-exaltados de fato eram como o artista descreveu, sem nenhum laivo de exagero.

Saint-Victor, antes de reproduzir um parágrafo específico de “Vita”, faz a seguinte observação: “Todas as causas do buril e do desbastador são sagradas para Benvenuto. É tão inteiramente possuído por sua arte que ela o persegue até em seus sonhos. Ele escultura o impalpável, cinzela o sonho. Encarcerado por Paulo III, no castelo de Santo Ângelo, uma visão lhe aparece, onde vê o sol como um disco imenso, representando ao mesmo tempo Cristo e a Virgem”.

Na sequência, Saint-Víctor reproduz o seguinte parágrafo de “Vita”, sobre essa suposta experiência mística: “O sol, sem raios, assemelha-se a um banho de ouro fundido. Enquanto considerava este fenômeno, o centro do astro intumesceu e dele saiu um Cristo crucificado, formado da mesma matéria luminosa. Respirava uma graça e uma mansuetude tais, que o espírito humano não poderia imaginar nem a milésima parte... pois o centro do astro intumesceu, como da primeira vez, e tomou a forma de uma arrebatadora Nossa Senhora sentada e tendo sobre o braço o Menino divino que parecia sorrir. Ela estava colocada entre dois anjos de uma inacreditável beleza”.

Foi dessa forma que Cellini descreveu como se inspirou para fazer determinado medalhão de ouro, perfeito e incrivelmente belo, Tanto que não tem preço e que hoje integra o seletíssimo acervo de tesouros do Vaticano. Se teve, ou não, esse sonho, fica por conta de cada um acreditar ou não. Mas que a descrição é bela e literariamente rica, disso não há como duvidar.

Todavia, Cellini não faz concessões, reitero, ao descrever seus vícios, erros e crimes, mesmo quando tenta (e quase consegue) justificá-los. Em “Vita” emerge o perfil, sobretudo, de um homem mulherengo e violento, intratável e vingativo, de um sociopata na real acepção do termo, mas com um talento raríssimo e admirável. É preciso reconhecer que, apesar das fantasias e exageros, o livro autobiográfico desse temível e assombroso artista é excelente – diria, inigualável – retrato da Renascença, com sua glória e suas misérias, tanto (e principalmente) na Itália, quanto em toda a Europa.



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