Monday, December 23, 2013

Ingratidão com os heróis

Pedro J. Bondaczuk

A ingratidão, e isso não é novidade para ninguém, é uma das atitudes mais comuns entre as pessoas, que costumam esquecer muito cedo, e muito fácil, àqueles que as beneficiam. Na literatura são comuns citações a esse respeito e o poeta  português, Bastos Tigre, chegava a preferir a companhia dos cães, à humana, pois com o animal irracional achava que teria uma fidelidade irrestrita garantida.

As guerras, desde tempos imemoriais, sempre tiveram o condão de forjar heróis. Soldados que, com o despreendimento das próprias vidas, praticaram atos de abnegação e coragem, que assombraram seus contemporâneos. Entretanto, o que a história e as lendas passadas de boca a boca, que atravessam gerações, registram não são essas ações louváveis e virtuosas. Nos anais permanecem marcadas, a ferro e fogo, as cruentas batalhas que salpicaram os campos de combates de milhares de cadáveres e os generais que comandaram tais massacres, ditos heróicos.

No que se refere à gratidão, a memória popular jamais foi das mais brilhantes. E nem ao menos razoável. O soldado Jesse Carpenter, ganhador da estrela de bronze durante os tempos terríveis da Segunda Guerra Mundial, descobriu isso nos últimos 22 anos da sua vida, passados nas ruas de Washington, ao abandono, mendigando para poder sobreviver e tendo por amigo, somente, alguém mais indefeso do que ele: um paraplégico, a quem julgava seu dever dar proteção e a cujos pés morreu congelado no dia 5 de dezembro de 1984.

Longe ficaram os discursos inflamados dos políticos, ávidos por obterem um espaço a mais, gratuito, da imprensa, dos seus tempos de glória. Distantes se tornaram os dias de fotografias em primeiras páginas de jornais e manchetes louvando o ato de heroísmo de, enfrentando as balas inimigas, ter carregado vários companheiros feridos para um lugar seguro, salvando-lhes a vida. Ficaram remotos, perdidos na lembrança, como se não passassem de sonhos, os tapinhas nas costas dos amigos e os olhares de reconhecimento e admiração do povo nas ruas.

A memória humana é mesmo muito fraca quando se trata de recompensar quem é altruísta. Pune, geralmente, os autênticos heróis, por sentir-se humilhada em sua presença. O orgulho e a arrogância existentes em nós não admitem um reconhecimento sincero dos méritos alheios. É mais cômodo esquecê-los, do que imitá-los. A verdade é que os heróis incomodam. São lembrados, apenas, enquanto úteis para alguma finalidade, para serem usados por pretensos patrocinadores. Ou quando mortos, para emprestarem seus nomes a ruas, estádios, hospitais e outros logradouros públicos.

É estranho repudiar-se a violência, mas louvar-se os violentos. Crucificar-se os taumaturgos e carregar nos ombros os vilões que arrasam cidades. Sustentar celerados e deixar morrer à míngua os que se sacrificam por alguém. Aí reside a verdadeira raiz da violência humana: na inconsciente glorificação dos violentos.

(Artigo publicado na página 10, de Internacional, do Correio Popular, em 28 de dezembro de 1984)


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