Thursday, July 25, 2013

Passado e futuro dos costumes

Pedro J. Bondaczuk

O que os homens chamam de civilização é o estado atual dos seus costumes e o que chamam de barbárie são os estados anteriores. Os costumes serão chamados bárbaros quando forem costumes passados”. Essa constatação foi feita por um dos mais lúcidos escritores que o mundo conheceu, o francês Jacques Anatole François Thibault, que se consagrou (e ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 1921 pelo conjunto de sua obra) como Anatole France e que é a mais lídima expressão da realidade. Antes que algum leitor mais crítico me lembre, admito que já comentei, tempos atrás, essa mesma citação. Volto, todavia, ao tema, posto que em outro contexto. Portanto, não estou sendo repetitivo, como possa parecer.

Uma das coisas que mais me fascinam é observar o comportamento das pessoas, tanto aquelas com as quais convivo, quanto as que nem mesmo conheço pessoalmente, mas cujos atos chegam ao meu conhecimento pela imprensa ou por qualquer outro meio, e nas mais diversas situações. Ou seja, como se relacionam, como se amam, como se odeiam (pois isso é mais comum do que se queira admitir), como se divertem e vai por aí afora. Entendo que esse é o papel não apenas do estudioso do comportamento (e há,  inclusive, uma disciplina específica voltada para esse estudo, a Etologia), ou ao sociólogo, mas, sobretudo, ao escritor.

Se você quiser conhecer, a fundo, a história de determinado povo, não é a documentos (ou não apenas a eles) que deve recorrer. Nem a descobertas arqueológicas que fundamentem relatos de historiadores. Entendo que isso se trate de material meramente subsidiário. A verdadeira história desse povo você conhecerá, somente, lendo os escritores do tempo que pretender conhecer. E de preferência (caso seja possível), em edições originais da época, com a linguagem de então, sem as diversas atualizações ocorridas através dos tempos mediante reformas ortográficas. Fazendo isso, você conhecerá, não somente a maneira que as pessoas se relacionavam (se amavam, se odiavam, se divertiam etc.etc.etc.), mas até como se expressavam. Como era sua linguagem no dia a dia? E seus textos? E sua gíria? Acho isso fascinante.

Não é preciso nem mesmo recuar muito no tempo – embora, quanto mais recuarmos, mais exóticos nos parecerão os comportamentos – para termos uma boa idéia a propósito. Por exemplo, como era o Brasil da segunda metade do século XIX? Você terá uma determinada visão lendo os compêndios de história. Mas terá outra, muito mais viva, exata e verdadeira, com a leitura, por exemplo, dos romances então publicados. Mas nas edições de então, com a forma de grafar as palavras de antes da primeira reforma ortográfica ocorrida, com o “ph”, por exemplo, usado em vez do atual “f”, com palavras que hoje grafamos com “s” então escritas com “z” e vai por aí afora.

Poucos se dão conta, por exemplo, que então nossa sociedade ainda era escravagista. Que essa nódoa em nossa história, que é a escravidão, era algo normal, legal e quase consensual. Afinal de contas, esse comportamento absurdo foi abolido, dos nossos usos e costumes, há somente 125 anos, o que, em termos históricos, é uma ninharia. Os duelos, então, para “lavar a honra com sangue”, quando nossos ancestrais se sentiam ofendidos por alguém, eram comportamentos triviais. Hoje... poderiam ser caracterizados, quem sabe, como tentativas de homicídio, ou até como assassinato, se um dos contendores fosse ferido de morte. Mas então eram coisas consideradas “normais”.

E como nossos já tão remotos ancestrais se divertiam? Não se esqueçam que na época não existiam nem o rádio, muito menos televisão. Computador, então, era coisa que sequer passava pela cabeça do mais abilolado e disparatado dos fantasistas. Não havia gravação nenhuma de som e nem de imagem, pois nem a vitrola e nem a fotografia haviam, ainda, sido inventadas. Cinema? O que é isso?! Nem pensar! Não se cogitava dessa invenção em uma época que não havia nem mesmo eletricidade.Não existiam automóveis, ônibus, caminhões, tratores, helicópteros, aviões etc.etc.etc.  E isso há menos de um século e meio, ou seja, um virtual ontem em termos históricos.

O futebol, grande paixão nacional nossa (e hoje, a rigor, o é no mundo inteiro), ainda não havia sido também inventado. Aliás, nem ele e nem os tantos outros esportes de menor apelo popular entre nós, mas popularíssimos em outros países, notadamente nos Estados Unidos, como o basquete, o beisebol, o vôlei, o hóquei, o futebol americano e vai por aí afora. E isso, se praticado pelos homens. As mulheres começaram a praticar algumas dessas modalidades muitíssimo tempo depois, há pouco mais de meio século, se tanto.

Quanto à música, tão ou até mais popular do que os esportes, com shows que hoje chegam, não raro, a congregar até a mais de cem mil pessoas, com toda sua parefernália de ampliação de sons, não lembrava em absolutamente nada os ritmos atualmente em voga. O samba, por exemplo, nem mesmo havia sido criado. E o rock? Que nada! É fenômeno recentíssimo, cujo nascimento parte considerável das pessoas mais velhas testemunhou e cuja evolução acompanhou (caso seja apreciadora dessa vertente musical). Somos levados a achar que a vida dos nossos ancestrais, e nem tão remotos assim, era insípida, árdua, chata, chatíssima e vazia. Seria mesmo? Para nossos padrões, era!. Será, porém, que eles achavam isso?

Como esses antepassados encarariam nossos costumes, caso vivessem hoje? Se adaptariam ao nosso comportamento, pautado pelos avanços tecnológicos, ou nos considerariam um bando de malucos, apressados e barulhentos, correndo, correndo sem sabermos onde queremos chegar? E como nossos descendentes irão considerar, em um século e meio, nossos costumes e nossos modos de comunicação e de diversão? Provavelmente, como somos tentados a considerar nossos antepassados da segunda metade do século XIX: bárbaros! Isso, claro, caso não retroajam à barbárie de fato, em decorrência de algum cataclismo, como o que afundou a mítica Atlântida no oceano, recomeçando, virtualmente do zero, sua aventura, digamos, civilizatória. Voltarei, certamente, ao tema.


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