Resultado da “síndrome
do pavão”
Pedro
J. Bondaczuk
O médico e fisiologista
Joseph Breuer foi, durante muitos anos, não só zeloso amigo, mas uma espécie de
protetor e de importante aliado de Sigmund Freud nos momentos que este mais
precisou. Ajudou-o, em inúmeras ocasiões, até financeiramente, tirando-o de
alguns apuros com os credores, numa época de vacas magras. Era catorze anos
mais velho (nasceu em 15 de janeiro de 1842), tendo, portanto, (ao menos
teoricamente) maior experiência de vida e mais vivência do que o “Pai da
Psicanálise”. Curiosamente, morreu catorze anos antes do que Freud, em 20 de
dezembro de 1925.
Breuer foi poupado,
dessa forma, da perseguição dos nazistas, que treze anos após sua morte,
anexaram a Áustria à Alemanha e deram implacável caça aos judeus, enviando-os,
sempre que os prendiam, para os hediondos campos de extermínio onde,
invariavelmente, eram assassinados. Não testemunhou, portanto, o suicídio da
filha, Dora, que se matou para escapar das mãos da perversa polícia secreta de
Adolf Hitler, a malfadada SS.
Hoje em dia, quando se
menciona o nome de Breuer, ele é, invariavelmente, associado ao de Freud, como
se houvesse dependido dele para ser bem sucedido na carreira. Considero isso
uma injustiça, uma ironia histórica. Não foi o que, de fato, aconteceu. Sua
obra foi copiosa e valiosa e não dependeu em nada de Freud. Breuer teve,
enquanto vivo, muito maior prestígio e reconhecimento público do que seu amigo
mais jovem. É considerado, com muita justiça, um dos mais eminentes
fisiologistas do século XIX. Pesquisou, incansavelmente, ao longo de quatro
décadas e fez importantes descobertas no campo da fisiologia nervosa, assunto
sobre o qual publicou vinte sólidos trabalhos científicos.
Além disso, foi
professor de Medicina, por dez anos, de 1875 a 1885, na Universidade de Viena.
Em 1894, em reconhecimento aos seus méritos, Breuer foi eleito para a Academia
de Ciências da capital austríaca. Querem saber mais? Apesar da inegável
importância de Freud, esse médico competentíssimo, pesquisador meticuloso e
professor requisitado deveria ser reconhecido como o legítimo “Pai da Psicanálise”,
que de fato foi. Afinal, foram seus estudos e experimentos que lançaram as
bases que caracterizam essa disciplina. Mas...
A essa altura, o leitor
deve estar curioso para saber o que causou a ruptura entre esses dois célebres
amigos. Vou tentar resumir. Há já bom tempo, Breuer vinha acumulando suas
atividades de pesquisador, professor e médico, especializado em tratar doenças
até então, embora muito comuns, com poucos resultados positivos em termos
terapêuticos, entre as quais a depressão e a histeria. Utilizou, de início, a
técnica da hipnose, que não apresentou, contudo, os resultados que desejava.
Resolveu inovar. Criou o que ficou conhecido, então, como “terapia da
conversa”.
Sua paciente mais
famosa e com a qual o método funcionou com absoluto sucesso, pela primeira vez,
foi Bertha Pappenheim. Ela ficou famosa sob o pseudônimo de “Anna O.”, que
constava em seu prontuário, nome com que foi imortalizada nas publicações médicas.
Breuer chegou a manter cálido romance com essa jovem, de 21 anos, o que gerou
um princípio de escândalo, logo abafado, já que era casado com Matilda Altmann,
com quem tinha cinco filhos. Na tentativa de restaurar seu casamento,
seriamente abalado por essa aventura extraconjugal, ele chegou a abandonar a
clínica médica para fazer longa viagem com a esposa ofendida. Mas esta é uma
história que não cabe nestas considerações.
O método terapêutico de
Breuer, que foi chamado de “Catarse”, funcionou bem, mas apresentou sérios
efeitos colaterais. Freud identificou-os e até lhes deu nome: Transferência e
Contra-transferência. Ou seja, as pessoas tratadas por esse método se
apaixonavam pelo terapeuta ou viam nele a figura do pai em que projetavam
afeições e ódios. Como não sou especialista na matéria, deixo, a quem se
interessar, a incumbência de pesquisar a respeito.
Enrolei, enrolei e
enrolei e ainda não revelei o motivo da rusga entre os dois amigos, a que os
levou ao rompimento. Vamos lá. Tentarei ser o mais objetivo possível. Pelo
método de Breuer, as pacientes tratadas, induzidas a falar de seus problemas e
lembranças, invariavelmente relatavam casos de seduções infantis. Ou seja, de
abusos sexuais supostamente sofridos na infância. O terapeuta entendia, porém,
que se tratasse de meras fantasias das pacientes e não de relatos de fatos
reais, de episódios realmente acontecidos. Freud, no entanto, para quem Breuer
havia ensinado a técnica, discordava do amigo. Acreditava que as pacientes
haviam sido, realmente, seduzidas quando crianças, tal qual relatavam, o que
lhes causara os traumas que redundaram na doença.
Os ainda então “amigos” discutiram longamente
sobre o assunto. Cada um apegou-se ferrenhamente à sua tese, sem ceder um
milímetro que fosse nas posições defendidas. O tom dessas discussões, como
seria de se esperar, foi, paulatinamente, esquentando, se elevando ao ponte de
fervura, até desembocar no que poderia e deveria ser evitado e não foi. Ou
seja, à mútua troca de palavrões. Quase chegaram às vias de fato. Dessa forma,
por simples divergência de opinião, romperam longa e promissora amizade,
exclusivamente por não saberem, ou não quererem ceder em seus argumentos. E
quem estava errado nessa controvérsia? Quem vocês acham? Se responderam que era
Freud, acertaram. Tanto que ele reconheceu, anos mais tarde, que as “memórias”
de abusos sexuais na infância não passavam, mesmo, de fantasias. Todavia... nem
por isso a amizade foi restabelecida.
Os
médicos chamados "Breuerianos" continuaram a utilizar as técnicas
originais de catarse desenvolvidas por Josep Breuer, sem adotar as modificações
introduzidas por Sigmund Freud que, por sua vez, acabou abrindo mão delas,
convencido do seu erro. Deduzo que uma amizade tão bonita, e tão útil para a
ciência psicanalítica, não conseguiu resistir a mero surto de vaidade de dois
gênios, disso que costumo denominar, meio que em tom de galhofa, de “síndrome
do pavão”, tão comum, convenhamos, a todos nós, pobres e iludidos seres
humanos.
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