Tuesday, February 07, 2017

Perestroika tem função didática


Pedro J. Bondaczuk


O presidente Mikhail Gorbachev afirmou e reiterou inúmeras vezes que a perestroika não é, em absoluto, o funeral do socialismo, no que diz respeito aos ideais de promoção de justiça social. O que ele está abrindo mão é do dogmatismo retrógrado, que cristaliza equívocos em nome de um pretenso ideal igualitário. É o totalitarismo. É aquela idéia estúpida de que o homem deve servir ao Estado, quando a proposição correta é exatamente inversa.

Ele próprio assinalou, no livro "Perestroika, Novas Idéias para o Meu País e o Mundo": "A vida leva-nos a rejeitar estereótipos tradicionais, idéias obsoletas e ilusões". Ou seja, Gorbachev está deixando de lado os clichês, slogans e palavras de ordem despidos de conteúdo. Está sepultando dogmas. Está despertando a população de suas ilusões para a dura realidade dos fatos.

Esta, todavia, não tem sido agradável. O país envia foguetes a outros planetas e não sabe fabricar uma geladeira que preste. Daí o descontentamento, represado por sete décadas, estar rompendo os diques do autoritarismo e extravazando para as ruas, as fábricas, os jornais e toda a vida pública.

A atual geração de soviéticos foi condicionada a entregar suas preocupações e aflições nas mãos de um "líder", de um "grande papai" (Stalin era chamado dessa maneira até a sua morte) que o partido mistificava e as pessoas não ficavam sequer sabendo se era de fato humano ou mero símbolo.

Os restos mortais de Lenin são preservados até hoje e venerados como um santo. A socióloga soviética, Larissa Lissjutkina, constatou a esse propósito: "Numa sociedade totalitária, a personalidade é imediatamente destruída, mas continuamos vivendo biologicamente. A vida do déspota nada tem de humano e por este motivo anulou, de maneira exemplar, as fronteiras entre o ser e o não ser. No romance '1984', de Orwell, nem mesmo os membros mais elevados do 'partido interno' sabem se o Grande Irmão está morto ou se ele continua vivendo, se existe um ser humano ou apenas um símbolo".

Com Gorbachev, nada disso acontece. A população sabe que ele é "humano". Intui que possui vulnerabilidade, como cada cidadão. Que tem família, interesses pessoais, problemas, dúvidas, fraquezas e depressões. Portanto, é um homem de carne e osso, como qualquer um. Por isso, não satisfaz o estereótipo do líder todo-poderoso que foi passado ao povo através de anos de culto à personalidade dos que comandavam seus destinos do Cremlin, como se fossem marionetes. Daí, o presidente soviético ser tão vulnerável.

Hoje, tudo o que de ruim acontece na URSS é atribuído à "incompetência" de Gorbachev. Ele é o alvo visível, palpável, presente de todos os descontentamentos. Os soviéticos conquistaram liberdade, mas não sabem o que fazer com ela. Afinal, jamais foram livres. Querem uma vida melhor, mas não se dispõem a sacrifícios espontâneos. Nunca foram chamados a participar da condução de seus próprios destinos. Sempre foram fantoches nas mãos dos czares e secretários-gerais do Partido Comunista.

O editorialista de "O Estado de São Paulo", Noênio Spínola, no artigo intitulado "Z e a Dança dos Fantasmas", publicado em 13 de fevereiro de 1990, expressou como poucos a característica básica dos liderados de Gorbachev, ao constatar: "Dostoievskianos como são os russos, divididos entre o crime e o castigo, entre o bem e o mal, eles não conhecem muitas zonas de sombra".

Ou seja, para eles não há outros números entre o oito e o oitenta. Suas vidas sempre oscilaram entre extremos ditados de cima para baixo. Daí a perestroika ter a necessidade de ser implantada no tempo certo, nem adiantada e nem atrasada. Antes de tudo, ela tem sido um processo didático para todos os soviéticos.

(Artigo publicado na página 13, Internacional, do Correio Popular, em 19 de abril de 1991).


 Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk     

No comments: