Sunday, February 05, 2017

O gostinho do mistério


Pedro J. Bondaczuk

O conto policial sempre foi, e continua sendo, considerado como gênero menor, até mesmo marginal, da literatura. Isto, em termos mundiais. No Brasil, virtualmente inexiste, embora os poucos que se aventuraram nesse campo o fizeram bem, com talento e competência. Diríamos até com maestria. Livros e revistas, abordando esse tipo de história, batem recordes de vendas em âmbito internacional. Constituem-se em verdadeiras minas de ouro para os editores, que lançam edições e mais edições, em diversos idiomas e formatos. A inglesa Agatha Christie, por exemplo, sempre esteve na relação dos "best-sellers" mundiais, com uma produção praticamente em série, e de ótima qualidade. Mesmo depois de morta, sua obra continua sendo reeditada, inclusive no Brasil.

Livros de bolso, vendidos em estações de metrô dos Estados Unidos e Europa, esgotam-se mal são lançados. São edições e mais edições, com milhões de exemplares somados. Os autores de contos policiais (além de novelas e romances), no entanto, apesar desse sucesso comercial, nunca constaram de qualquer antologia, embora alguns tenham feito fortuna escrevendo roteiros de cinema e televisão. Nenhum deles foi, jamais, candidato a qualquer prêmio literário, mesmo aqueles de menor importância ou menos projeção. Essa atitude não passa de preconceito. O gênero é dos mais difíceis e interessantes. Exige do autor extrema clareza, talento descritivo, perícia na elaboração de diálogos e uma verdadeira "engenharia" na montagem dos enredos que prendam o leitor da primeira à última página. Minha iniciação na ficção foi feita com esse tipo de história. Mais como leitor, é preciso confessar, do que como autor.

O conto policial é um dos meus gêneros preferidos. Tive a oportunidade de ler milhares deles, a maioria com qualidade bastante superior à média. O único escritor reputado nessa vertente, objeto de estudo dos críticos literários e considerado um verdadeiro clássico da literatura norte-americana e mundial, é Edgar Allan Poe. E assim mesmo, não por causa do seu texto ou estilo, mas em decorrência da sua estranha, posto que fascinante, personalidade. Ou, mais especificamente, da sua atribulada vida, repleta de desgraças, ele que morreu por causa do álcool, literalmente em uma sarjeta. No entanto é tido e havido como o "pai" não apenas do conto policial, mas também do de terror.

Durante anos, colecionei quatro revistas do gênero que circulavam no Brasil: "X-9, Meia-Noite, Suspense e Mistério Magazine de Ellery Queen". Familiarizei-me com personagens imortais, como o detetive Nero Wolff --- descrito como um homem gordo, prático, sempre trajando um capote cinza e apreciador de amendoins, que consumia às toneladas. Outro que sempre me fascinou foi Simon Templar, "O Santo", uma espécie de Robin Hood contemporâneo e tipicamente urbano, que combatia os fora-da-lei com as armas destes, ou seja, com ilegalidades. É o típico "ladrão que rouba ladrão".

Em livros, obviamente, li todos os de Arthur Connan Doyle traduzidos para o português, deliciando-me com as peripécias de Sherlock Holmes e de seu fiel escudeiro, o doutor Watson. E, claro, os da "primeira-dama" do gênero policial, Agatha Christie. Além do prazer que esse tipo de leitura sempre me deu, aprendi em suas páginas a descrever, com clareza e precisão, cenários das ruas de uma cidade, vestuários, interiores de residências de diversos estilos, mobiliários e tipos humanos de todas as camadas sociais. Exercitei diálogos verossímeis, na linguagem falada pelo povo. Pratiquei o raciocínio dedutivo e armadilhas para induzir leitores a fazê-lo sem que se apercebessem, de modo a que nunca perdessem o interesse por uma história antes de chegar ao final dela.

Tudo isso, é certo, encontra-se nos clássicos do romance e do conto mundiais. Ou em livros de ficção científica  --- que para o meu gosto racional, prático, extremamente pé-no-chão, é fantasioso demais --- ou de época. Ninguém está propondo aqui uma opção entre um gênero e outro. Um intelectual e, especialmente, um escritor, precisa ler de tudo, sem qualquer preconceito. Mas só os contos policiais transmitem aquele toque de suspense e de mistério que todos apreciamos, embora alguns esnobes procurem negar. Daí minha preferência por esse tipo de literatura tão marginalizado.


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