Thursday, March 24, 2016

Novela já vista cujo final se conhece

Pedro J. Bondaczuk

O governo argentino colocou, desde quinta-feira passada, em pleno andamento, a segunda fase do chamado Plano Austral, com medidas que, segundo a Casa Rosada, tenderão a reativar a economia do país, paralisada por brutal recessão, cujas conseqüências são muito difíceis, se não impossíveis, de dimensionar. Algumas das providências já são nossas velhas conhecidas, apregoadas aos quatro ventos, em 1982, como a “salvação da lavoura”. Entre elas destacam-se a construção de 85 mil casas populares e linhas de crédito para empresas que optarem em voltar sua produção ao mercado externo.

Aliás, no Brasil, quando da ocorrência do nosso “Setembro Negro”, ocasião em que não foi mais possível esconder da sociedade a situação de insolvência externa do país, nossas autoridades se mostraram até mesmo mais ousadas do que as da Argentina. Anunciaram, naquela oportunidade, a construção de um milhão de unidades habitacionais voltadas à população de baixa renda. Todavia, nem as que já estavam prontas, disponíveis, portanto, a eventuais interessados, conseguiam ser negociadas. Por que? Por falta de compradores. É evidente que a recessão que nos estava sendo imposta, desde meados de 1980, havia suprimido os empregos dos potenciais adquirentes de casas próprias. Esse número astronômico de unidades, anunciado na ocasião, compreensivelmente, acabou sendo drasticamente reduzido, às vésperas das eleições estaduais, com conseqüências tão danosas que são sentidas ate hoje.

Quanto à ênfase dada ao comércio exterior, para acumular reservas em dólares, visando ao pagamento das elevadas taxas de juros da dívida externa, essa medida mostra-se uma clássica faca de dois gumes. Se por um lado reativa alguns setores produtivos, sobretudo da indústria, amainando a crise de desemprego (embora longe de solucioná-la), por outro traz embutida uma inegável componente inflacionária. O mercado interno passa a ser deficitário de determinados produtos destinados à exportação. E a inflação (já que a demanda, mesmo com tantas pessoas desempregadas e com o achatamento salarial dos trabalhadores, se torna maior do que a oferta) tende a registrar taxas exponencialmente crescentes.

Por isso, o Plano Austral, anunciado aos quatro ventos como a maravilha das maravilhas econômicas, poderá ser ainda mais comprometido por uma de suas próprias fases. Assim, a economia argentina tende a continuar andando em círculos. A inflação de países como o Brasil, a Argentina e o México só poderá ser contida levando em conta, prioritariamente, seus respectivos mercados internos. Para isso, porém, é indispensável uma produção crescente de bens, até ao ponto da fúria consumista da população não poder superar a oferta ao seu dispor. Isso exige investimentos e evita a especulação financeira com papeis. É evidente que no primeiro estágio, enquanto as prateleiras dos supermercados (e seus depósitos) não estiverem extravasando mercadorias, esse consumismo desenfreado fará as taxas de inflação crescer.

Todavia, se a reposição de estoques for mais ágil do que a saída dos produtos, chegará determinado momento em que os preços terão, forçosamente, que despencar, sob pena de encalhe de mercadorias, o que nenhum comerciante competente e ajuizado quer que ocorra. Afinal, se não vender o que acumulou, se tornará infeliz proprietário de enorme elefante branco, representado por enorme capital ocioso que investiu, empastado, sem o esperado retorno, com os respectivos lucros. Seria nesse caso, no meu entender, e apenas nele, que poderia entrar na jogada o mercado externo. A ação inversa não resolve um problema e nem outro. Ou seja, nem o país liquida (ou pelo menos atenua) sua dívida com os bancos credores (porquanto estará saldando, apenas, e com sacrifícios crescentes da população, os juros, sem amortizar um mísero centavo de dólar do principal) e nem a inflação irá ceder em virtude da demanda continuar maior do que a oferta.

Essas recessões “por decreto”, via achatamento salarial, punem, exatamente, os que menos consomem, por não contarem com recursos para tal. Dada a péssima distribuição de renda, gritante realidade em toda a América Latina, os que se lançam a um consumismo desbragado e não raro perdulário, continuarão com essa prática, por terem “bala” na agulha para isso. O que eventualmente perderem com a alta dos preços, recuperarão em dobro (ou muito mais) com a especulação no mercado financeiro. Afinal, raros deles dependem, ou virão a depender algum dia, de salários. Embora constituam minoria da população, seguirão consumindo, consumindo e consumindo o que precisam e o que não precisam e em quantidades exageradas. Por conseqüência lógica, a demanda seguirá superando, crescentemente, a oferta, pressionando os preços cada vez mais para cima. A segunda fase do tão decantado Plano Austral, portanto, a meu juízo, está fadado, inexoravelmente, ao fracasso. É uma novela repetitiva, da qual se conhece, “ad nausea”, o desfecho. É, infelizmente, uma triste história com final dos mais infelizes. Confiram daqui a algum tempo.     

(Artigo publicado na editoria Internacional, do Correio Popular, em 12 de fevereiro de 1986).


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