Wednesday, February 04, 2015

Personagens insólitos já nos próprios nomes

Pedro J. Bondaczuk

O livro “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley, apresenta inúmeras peculiaridades, além, claro, do seu enredo. Este, em muitos aspectos, é considerado “profético”. (tomara que suas “previsões” jamais se concretizem, embora muito do que cita já exista hoje em dia). Uma das coisas que me chamam, em especial, a atenção, é a composição dos seus personagens. Outra é o sistema de castas que imaginou. E vai por aí afora. Esse admirável romance de ficção científica é caracterizado da seguinte forma por Assis Ribeiro, em um lúcido texto publicado no blog do jornalista Luís Nassif em 3 de setembro de 2012, intitulado “Uma análise sobre o livro Admirável Mundo Novo”:

“O livro traça o contraste entre o ‘moderno’ e o ‘atrasado’, tecendo críticas pungentes ao desenvolvimento ‘prodigioso’ da ciência, que, segundo o autor, ao contrário de promover benesses à sociedade, contribuiu para o surgimento de diversos problemas de ordem social que posteriormente não seriam resolvidos. Sob esta perspectiva, o personagem John – ‘o Selvagem’ – confronta-se diretamente com o mundo moderno, reiterando a impossibilidade de convivência entre o tradicionalismo e o mundo da ciência”.

Entre os vários aspectos que me chamaram a atenção, se destacam os personagens que o escritor criou. E não apenas pelos papéis que lhes atribuiu na trama, mas no próprio nome que Huxley lhes deu. Parte considerável deles (se não a maioria, pelo menos quase) tem algo a ver com personalidades reais, de carne e osso, que estavam em evidência, por qualquer razão, em 1931, ano em que o livro foi escrito. Cito, por exemplo, Lenina Crowe (que nos remete a Vladimir Ilitch Lenin), Polly Trotsky (em referência ao revolucionário bolchevique Leon Trotsky), Henry Foster (que lembra Henry Ford) e vai por aí afora. Estão, neste caso, também, Bernard Marx, Benito Hoover, Darwin Bonaparte, Morgana Rotschild, Herbert Bakunin, Joana Diesel e Sarojini Engels. Convenhamos, trata-se de forma, digamos “não usual”, ou pouco comum, ou, no mínimo, pitoresca, de “batizar” personagens.

A enciclopédia eletrônica Wikipédia (que faço questão de citar, por ter sido ferramenta de imensa ajuda na análise de “Admirável mundo novo”), destaca um aspecto ao qual eu não havia atentado, na primeira leitura que fiz do livro. Refiro-me a personagens (reais ou fictícios) que morreram antes dos eventos do enredo, mas que são citados o tempo todo ao longo do romance. O principal deles é Henry Ford. Huxley fez dele figura messiânica para o Estado Mundial que imaginou. Wikipédia ressalta, a esse respeito: "’Oh Ford’ ou ‘Nosso Ford’ (our Ford), é usado no lugar de ‘Oh Senhor’ ou ‘Nosso Senhor’ (our Lord), como crédito por sua invenção da Linha de Montagem. Ford é o idealizador do modelo industrial focado na mecanização, padronização da produção e divisão do trabalho em etapas, com separação entre trabalho manual e intelectual. O papel do estado neste modelo seria o de agente regulador”.

Outro mito do século XX é alçado a idêntica condição de Ford. Trata-se do “pai da psicanálise”, Sigmund Freud, então em grande evidência por “invadir”, sem cerimônia, a mente humana, para dissecá-la e explicá-la. Wikipédia observa: "’Nosso Freud’ (our Freud) é algumas vezes citado no lugar de ‘Nosso Ford’. A junção de Ford e Freud no mesmo personagem pode dever-se à tentativa de Freud de organizar o aparelho psíquico, sugerindo que cada sistema teria sua função, o que remete ao modelo de Ford. O conflito entre a satisfação da sexualidade e a repressão ética e moral toma forma com a ‘segunda teoria tópica’, na qual o SUPEREGO julga, critica, censura e proíbe, baseado nas regras aprendidas com os pais e educadores”.

As personalidades citadas por Huxley não são apenas essas duas que mencionei, embora sejam as mais destacadas no enredo. H. G. Wells é uma das que aparecem. Ivan Petrovich Pavlov (um dos teorizadores do reflexo condicionado) é outra. O bardo de Stratford-upon-Avon, William Shakespeare, é mais uma. Assim como Karl Marx, Charles Darwin, Napoleão Bonaparte e Thomas Malthus, das que consegui identificar.

Simpatizei, particularmente, com o personagem Bernard Marx. Por que? Por sua rebeldia. Pelo fato de opor-se àquele sistema ao qual pertencia, mas que não lhe satisfazia. E principalmente por não estar satisfeito com sua condição de fisicamente “diferente” dos demais integrantes do grupo que lhe fora determinado (por um defeito de “fabricação”). Por causa disso, era perseguido por seu superior.

Wikipédia observa: “Num reduto onde vivem pessoas dentro dos moldes do passado, uma espécie de ‘reserva histórica’ – semelhante às atuais reservas indígenas – onde preservam-se os costumes ‘selvagens’ do passado (que corresponde à época em que o livro foi escrito), Bernard encontra uma mulher oriunda da civilização, Linda, e o filho dela, John.  Vê uma possibilidade de conquista de respeito social pela apresentação de John como um exemplar dos selvagens à sociedade civilizada”. A seguir, explica: “Para a sociedade civilizada, ter um filho era um ato obsceno e impensável. Ter uma crença religiosa era um ato de ignorância e de desrespeito à sociedade”.

Ocorre que Linda era amante de seu chefe e desafeto. Até aí, tudo bem. O sexo era livre, desde que praticado com caráter exclusivamente “recreativo”. John, todavia, era filho dessa mulher com o amante. Foi concebido por puro descuido. Sua concepção, portanto, era “obscena” e condenada pela sociedade “civilizada”, no caso, aquela, daquele mundo todo (perversamente) planejado. Daí ter sido rejeitada por ela.

Assis Ribeiro explica melhor qual o papel que esse personagem, fruto proibido naquele mundo artificial, desempenhou, tratado, também, como o “Selvagem”:  “(...) John é recebido como algo aberrante, mas cria um fascínio estranho por suas impressões humanas e sensíveis entre os habitantes do ‘Admirável Mundo Novo’. A sensibilidade e liberdade de pensamento que expressa provocam um contraponto com a sociedade que eles acreditavam perfeita e muitos preferem partir para novas experiências”.

A principal mensagem que detectei na “fábula futurística” de Aldous Huxley é que a ciência não é, e nem pode ser, panacéia para todos nossos males, sejam de que natureza forem. Se utilizada sem critério, sem ética e sem juízo, tende a ser um mal sem remédio, em vez de solução para o que quer que seja. O terrível de tudo isso é que a sociedade preconizada no livro é possível (embora não saiba se é provável. Tomara que não!). Concordo com a observação de Maria Clara Corrêa Tenório que, em seu ensaio “O Admirável Mundo Novo: fábula científica ou pesadelo virtual”, escreveu: “Não queremos crer que isso possa ser possível em nossos dias, mas as pesquisas genéticas avançaram. É assustador, mas dispomos de tecnologia e de conhecimentos científicos que tornam perfeitamente provável a fabricação dessa espécie de ‘semi-homem’, que tanto horrorizou o Selvagem, no Admirável Mundo Novo. O clone é uma realidade a nos pesar sobre as cabeças. Faz-nos questionar: até que ponto podemos ir?  Quais os limites do homem? O biologicamente possível é eticamente correto? São debates éticos que se travam nos meios científicos, mas aos quais não podemos, embora leigos, ficar alheios”. E não podemos mesmo.


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