Saturday, February 14, 2015

A complexa criação de personagens


Pedro J. Bondaczuk

A criação de personagens é uma das tarefas essenciais, posto que das mais complexas, do escritor que lida com ficção. É até desnecessário enfatizar a importância dessa atividade, por ser rigorosamente óbvia. Considero-a primordial nesse tipo de literatura.  Requer, todavia, equilíbrio e ponderação do ficcionista. Tanto pode valorizar um enredo fraco, tornando-o magnífico, como arruinar por completo histórias potencialmente excepcionais, mas que, dado o exagero nos seus protagonistas, se tornar fantasiosa em demasia, a tal ponto de ás vezes beirar o ridículo, se não descambar literalmente para ele, dada sua inverossimilhança.

Personagens para serem parecidos com pessoas reais, “de carne e osso”, dessas com as quais convivemos, ou com que cruzamos em nosso cotidiano, não podem (salvo raríssimas exceções) descambar para extremos. Ou seja, não convencerão nenhum leitor se forem tão bondosas e corretas a ponto de causarem inveja aos santos dos santos e também não se forem poços de maldade, do tipo das quais não daria para esperar ínfima, reles atitude ou pensamento corretos, éticos, construtivos  e generosos. O mesmo vale no que diz respeito à aparência, à riqueza (ou miserabilidade) e vai por aí afora. Equilíbrio é essencial.

Conheço livros (e tenho alguns deles em minha biblioteca) que tinham tudo para serem marcantes, mas... foram arruinados por falta de cuidado, pela tendência ao exagero, pela ausência de moderação dos autores, entre outras tantas ações desastradas e omissões inconcebíveis, na criação de personagens. Duvido que fizeram revisão do que escreveram. E não me refiro, apenas, àquela meramente vocabular, obrigatória para qualquer redator que se preze, que tem o dever de lidar com absoluta correção com a “ferramenta” da sua atividade. Refiro-me à que é a essencial, posto que nem sempre lembrada. E ela consiste em cortar o excedente (a ação mais comum e necessária para enxugar o texto e dar-lhe coerência e naturalidade), refazer parágrafos (e às vezes capítulos inteiros) e vai por aí afora, Enfim, “arredondar” o livro antes de dá-lo por terminado.  Por não terem feito essa revisão (que aliás não pode ser só uma, mas várias, talvez dezenas), não “emplacaram”. Não citarei nenhum desses livros “estragados” e muito menos seus autores, já que me recuso a linchar quem sonhou produzir uma obra-prima e só conseguiu escrever ridícula caricatura literária. Mas que eles existem, não tenham dúvidas.

Estão neste caso os que se fiam, apenas, na tal da “inspiração”, quando Literatura depende muito mais (não digo que exclusivamente, mas quase) de “transpiração”. Ou seja, de trabalho árduo, de estudo constante e aplicado, de meticulosa pesquisa, de rigorosa observação e, sobretudo, de aguçada e implacável autocrítica. Para prevenir o fracasso (e às vezes até o ridículo) o escritor precisa antecipar-se aos críticos e, sobretudo, aos mais exigentes leitores. Tem que buscar detectar o que provavelmente soará a incoerente ou duvidoso no que escreveu e não teimar com a própria intuição. Ou seja, suprimir o que pode não cair bem ou causar dúvida nos potenciais consumidores do produto que criou. Mesmo assim, não terá certeza alguma de que seu livro irá agradar e se tornar sucesso de vendas (nunca se tem). Imagine se agir com descuido, arrogância ou teimosia!   

Cada escritor tem método próprio para criar personagens. Alguns (não sei se a maioria, mas presumo que sim), criam-nos ao sabor dos enredos. Outros tantos, antes mesmo de pensarem uma história para narrar, inventam os protagonistas que a irão “viver”. Nesses casos, as peripécias e circunstâncias que urdirão na sequência vão girar em torno desses heróis e vilões. Minha maneira é mais ou menos esta, só que mais trabalhosa. Um dia, talvez, ainda trate deste meu método (ou talvez não).

Criar personagens maldosos, no meu modo de entender, não implica em grandes complicações. É só observar atentamente alguns tipos e descrevê-los como os enxergamos, sem necessidade alguma de exageros. Há, claro, os que erram a mão, não corrigem esses erros na revisão (ou nem a fazem) e se dão mal. O mais complicado é criar heróis que não sejam, digamos, “tão heróicos” assim. Que sejam humanos e, portanto, falíveis, com erros e contradições que todos temos. É especialmente nesse ponto, conforme tenho observado, que muitos falham. Aliás, o erro é algo comum a bons e maus. É a isso que devemos estar atentos aos criarmos nossos personagens.

Paulo Setúbal afirma no "Confiteor": "O homem, enquanto não enfreia os seus pendores inatos, enquanto é vaidoso, é soberbo, é vingativo, é iroso, é dominador, é odiento, é carnal; o homem, enquanto está apenas voltado para as coisas terrenas, enquanto ama a glória vã, ama o louvor, ama a riqueza, ama o poder, ama as honrarias; o homem assim...o homem que não tem os olhos virados para os esplendores espirituais, esse homem é ainda o `homem velho', o das cavernas, o que não se transformou, o que não se comoveu ante a palavra avassaladora do Cristo, o que não sentiu a beleza imortal do sermão da montanha, o que não foi tocado pelo anseio da perfeição. Até porque, como constatou o rei Salomão na velhice, após conhecer o auge da riqueza, da glória e do poder: ‘Vaidade, vaidade... Tudo no mundo é vaidade...’ Todos somos um pouco assim, variando, apenas, na intensidade.

Só não erra nunca quem não faz nada e passa a vida como parasita, explorando o esforço de quem tenta melhorar o mundo, sem contribuir em nada para o bem-estar próprio e da comunidade. A vida não comporta expectadores, mas requer agentes, tanto para praticar os atos mais simples, quanto para as obras mais complexas, que exigem preparo e esforço. George Bernard Shaw escreveu, em uma de suas tantas peças teatrais: ”Uma vida cometendo erros não é mais honrada, mas é mais útil do que uma vida gasta fazendo nada”. Nada é mais condenável do que a preguiça e o comodismo. É preferível errar uma, duas, dez, cem, mil vezes, do que nunca cometer erros, por jamais tentar fazer o que quer que seja.

Por pior que um indivíduo seja, rufião, assassino, ladrão, ou tenha o defeito que tiver, esse desajustado sabe o mal que está praticando, embora tente se justificar diante de si e dos outros. Quando tais pessoas são punidas, o que acontece com grande freqüência, afirmam que foram injustiçadas. Culpam os pais, as más companhias, a sociedade etc., por sua estupidez. Mas no íntimo, no fundo da sua mente, sabem que são sociopatas, quando não psicopatas. O desajustado está consciente do seu desajuste. O que não tem é vontade, ou competência, ou ambos para se ajustar. É um indivíduo que não cultivou a pequena consciência que tem e esta se atrofiou.

São aspectos como estes a que devemos atentar, não só na criação de personagens, mas, sobretudo, em nossa vida, na formação, ou na correção, da nossa personalidade. E ter em mente o que, há mais de dois milênios, o poeta grego Teognis observou: “São os patifes que comandam, os maus despojam os bons. Temo que o barco soçobre nas vagas”. Há diferença do que ocorre hoje? Nenhuma! Apenas quantitativa. E assim, parodiando o título de um célebre filme, “la nave va”. O mal, todavia, se multiplica, também, por causa da omissão dos bons, que perdem essa condição ao se omitirem. O omisso é um parasita e tem que ser considerado cúmplice de quem pratica o mal. Por melhor que pareça, portanto, não pode ser um personagem “bom”. Se o criarmos assim, não será verossímil. Portanto, soará falso ao leitor atento e arruinará nosso enredo.

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