Friday, February 14, 2014

Pego na curva pela vocação

Pedro J. Bondaczuk

O escritor Herberto Sales é, hoje em dia (felizmente) um dos autores brasileiros mais estudados em universidades, e não somente do Nordeste, de onde é originário, mas de todo o País. Isso dá a exata medida da sua importância para a Literatura nacional, reconhecida, se não pelo público, pelo menos no âmbito acadêmico. Tenho em mãos, entre várias outras, duas teses universitárias específicas, tratando de aspectos particulares de sua copiosa e variada obra literária. Uma é de Andréa Beatriz Hack, da Universidade Federal da Bahia, intitulada “A religiosidade na obra do intelectual Herberto Sales”. A outra, é de Ângela Vilma Santos Bispo Oliveira, da Universidade Federal de Pernambuco. Seu título é: “A poética da memória: o romance de Herberto Sales”.

Tenho em mãos mais um punhado de teses acadêmicas a propósito, todas ou de pós-graduação ou de doutorado em Letras, com uma série de peculiaridades e características desse inovador das letras nacionais. Não as registro aqui, não por não serem eventualmente relevantes (todas têm grande relevância), mas pela escassez de espaço e pela necessidade de me restringir ao essencial nestas análises que, em momento algum, tiveram e nem têm a pretensão de esgotar o assunto. Aliás, este é inesgotável.

Embora esta série de estudos, com base na antologia “Histórias da Bahia” (Edições GDR, Rio de Janeiro, 1963), se proponha, basicamente, a tratar de alguns dos principais contistas baianos, Herberto Sales não se dedicou, “apenas” a esse gênero, o que, se o fizesse, certamente não o desmereceria, dada a qualidade das histórias curtas que escreveu. Destacou-se, no entanto, e, sobretudo, no romance. Mas tornou-se, com o passar do tempo, um dos mais festejados e consagrados autores de literatura infanto-juvenil, desafio para qualquer escritor e que poucos ousam encarar. Eu não ousaria. Herberto, porém, encarou e se deu bem.

Escreveu, ainda, (e publicou, logicamente) livros com descrições de viagens, ensaios e vários volumes de memórias. Especificamente, como contista, publicou quatro obras do gênero, a saber: “Histórias ordinárias” (1966), “O Lobisomem e outros contos folclóricos” (1970), “Uma telha de menos” (1970) e “Armado cavaleiro audaz motoqueiro” (1980). A maior parte, todavia, da sua extensa e eclética obra ficcional centralizou-se no romance. E embora seja tido e havido como ficcionista regional, notadamente da região da Chapada Diamantina, concentrou-se, notadamente após atingir a maturidade literária, em temas das mais variadas naturezas e zonas.

O seu premiadíssimo romance “Além dos Marimbus”, o segundo que publicou, em 1965, trata de temática diversa da de “Cascalho”, da qual também era “expert”: a exploração de madeira. Ambos, porém, têm como cenário Andaraí, sua terra natal. Outro ponto em comum entre os dois enredos é que Herberto conhecia a fundo as duas atividades de que tratou, uma no primeiro e outra no segundo livro. Tão logo retornou de Salvador à terra natal, foi, por algum tempo, garimpeiro. Mais tarde, foi comerciante de madeira. Conhecia a fundo, portanto, reitero, as duas atividades de que tratou.

Ângela Vilma Santos Bispo Oliveira, também nascida em Andaraí, reproduz, em sua tese, explicações do próprio Herberto Sales sobre como “nasceu” o seu primeiro e festejado romance: “Comecei a escrever ‘Cascalho’ certa noite de chuva, à luz de uma vela, em Andaraí, no sobrado de meus pais (...) E nessa noite eu estava vivendo uma aventura nova, aventura de um temporal e de uma chuva que eu mesmo estava fazendo, por minha conta, no livro que começava a escrever, enquanto lá fora um temporal de verdade e uma cheia de verdade iam encharcando a noite que enchia o meu livro – noite de ‘Cascalho’, uma história de garimpeiros que eu não sabia onde ia acabar e até onde ia me levar”.

Mais adiante, Ângela reproduz a confidência de Herberto sobre o teor do seu romance de estréia: “(...) Foi uma superposição, uma sedimentação de vivências, de coisas extraordinárias muito ligadas a mim, e quando em determinado momento eu resolvi escrever o livro, o livro me foi imposto por esse ‘background’ de experiências. (...) E, naturalmente, aí sim, levado por uma posição que eu achava que devia assumir, como um escritor em perspectiva, em relação à comunidade em que eu vivia, à região em que eu nasci, é que eu tinha necessidade de fazer alguma coisa no sentido de revelar ou de fazer, como eu fiz no meu livro, um tipo de denúncia social da situação de toda uma população que vivia em condições extremamente precárias, sob um sistema da mais incrível exploração do homem pelo homem. Mas isso não significa partir de um desejo de denunciar para escrever o livro. Não, isso tudo se formou ao longo do tempo e teve um desfecho natural (...)”.

A ousadia de Herberto Sales, ao publicar “Cascalho” custou caro ao então jovem escritor. Embora seus personagens fossem todos fictícios, vários dos poderosos da terra, dos coronéis com seus bandos de jagunços, vestiram a carapuça e se viram retratados nas denúncias de crimes das mais diversas naturezas que compunham o cerne do enredo. E Ângela revela, no seu mencionado ensaio, qual foi a conseqüência para o neófito (e imprudente?) romancista: “Não é a toa que, quando da publicação do livro e sua repercussão em Andaraí, o escritor precisou sair ‘fugido’ para o Rio de Janeiro, em decorrência da reação negativa das pessoas que se viram focalizadas no romance”. Sua “fuga” trouxe, evidentemente, vantagens para a Literatura brasileira. Caso não fizesse isso... certamente seria vítima de alguma tocaia, coisa comum na época naquela região, que lhe daria fim à vida.

Já em relação aos madeireiros, tratados no seu segundo livro, tão ou mais realista e denso que o primeiro, “Além dos Marimbus”, não teve o mesmo problema em relação à ira e à violência dos conterrâneos. Quando esse romance foi publicado, Herberto Sales já residia no Rio de Janeiro há pelo menos treze anos.

Encerro estas reflexões de hoje com o seguinte trecho da brilhante tese de Ângela Vilma Santos Bispo Oliveira, seguida de uma confidência do nosso personagem, que ela cita em seu trabalho acadêmico: “O rapaz que até os dezenove anos nunca havia confessado qualquer interesse pelos livros, e que, por achar que morreria cedo, se entregou à mais desenfreada boêmia, sonhando um dia ser tão somente motorista de caminhão, se viu de repente diante de um chamamento: ‘A minha vocação literária estava esperando por mim na curva do caminho, dentro de uma macega. Sabia que eu ia passar por ali. Me pegou pela mão e me disse assim: Pensei que você não viesse mais. E pela mão me levou por uma vereda cheia de espinhos, de onde eu não podia mais voltar. A minha vocação literária me pegou numa armadilha. Que fazer? O jeito era ir atrás dela’”.



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