Monday, February 17, 2014

Contista com “gostinho de quero mais”

Pedro J. Bondaczuk

O conto com que James Amado participa da antologia “Histórias da Bahia” (Edições GDR, Rio de Janeiro, 1963) – obra que tomei por referência para esta série de estudos sobre alguns dos principais ficcionistas baianos –, intitulado “O sentinela”, foi extraído do “Suplemento Literário” do jornal “Diário de Notícias” da Cidade Maravilhosa. Na ocasião, o autor havia publicado um único livro, “Chamado do mar”, e assim mesmo um romance, que, no entanto, caiu, de cara, no gosto da crítica e do público. Tornou-se, num piscar de olhos, best-seller nacional. Em questão de semanas, esgotou a edição original, o que levou a Martins Editora a rodar várias outras. E todas esgotaram-se rapidamente. Em suma, a obra foi um sucesso.

Os meios literários e o público esperavam, pois, que o romance fosse o primeiro de tantos, dando sequência a uma carreira que, como tudo indicava, tinha tudo para ser das mais promissoras. Tinha... Não foi. James Amado nunca mais publicou nenhum outro livro do gênero. Aliás, não só dele, mas de nenhum outro. A exceção foi “Água branca”, no qual o autor estava trabalhando quando do lançamento de “Histórias da Bahia”, mas que só veio a público décadas depois, agora, recentemente, já nos primeiros anos deste século XXI. Por que esse prolongado “silêncio literário”? Para mim, é um mistério. Podem ser aventadas várias hipóteses, mas certeza, certeza mesmo, só James tem. Não sei se revelou o motivo para alguém. Se o fez, isso não chegou ao conhecimento do público.

A amostragem do seu talento, ou seja, o conto “O sentinela” incluído na antologia que tomei por base para esta série de estudos, deixa, em quem a lê, aquele “gostinho de quero mais”. James, todavia, não nos satisfez nesse aspecto. Uma pena, porquanto, pelo menos com esta história, mostra ser um contista magnífico, que teria muito que acrescentar à Literatura. O estilo empregado é o mesmo do romance “Chamado do mar” (este sim obra que li, reli, analisei e comentei), que tanto me entusiasmou e arrancou rasgados elogios de críticos muito mais gabaritados do que eu, como Otto Maria Carpeaux, Roger Bastide e, claro, do seu ilustre irmão, Jorge Amado. Embora cenários e enredo do conto e do romance sejam diferentes, ambos, no entanto, enfocam problemas humanos, desgraçadamente comuns, desses que só quem os enfrenta sabe o quanto doem, revoltam e humilham.

Leiam este trecho com que inicia “O sentinela” e concluam, por si sós, se a Literatura brasileira, notadamente a de ficção, perdeu ou não perdeu importante contribuição pelo fato de James Amado haver mantido sistemático “silêncio literário” por tantos e tantos anos:     

“Esta é a história do rosto de Anita, de como ele se recobriu para sempre de uma expressão tristonha. Não era assim no tempo em que ela vivia em Estância. O rio passava no fundo do quintal, ruidoso sobre as pedras do Sequeiro. Anita tinha dezessete anos. Gorducha de corpo, de rosto e de mãos, dois olhos redondos pareciam riscados sobre o nariz chato, o que lhe dava um ar engraçado. Também seus movimentos pareciam cheios de alegria, surpreendentemente ágeis na figura baixota.

A casa vivia sempre fechada. O pai saía de manhã para o armazém, batia a porta da rua que se abria novamente apenas para deixá-lo entrar à hora do almoço e da janta. A mãe vivia do quarto para a cozinha, evitava a sala e suas janelas que davam para a rua. Todo mundo sabia que o marido “botara casa” para uma rapariga vinda de Aracaju, ela era uma mulher desprezada, trancada naquela casa com sua vergonha e sua humilhação. Quando o marido passou a responder com pancadas e gritos aos seus rogos magoados ela deixou de ir à missa das seis aos domingos e não mais se mostrou a ninguém, como o animal doente que deixa o rebanho para morrer sozinho no mato. A casa onde o sol não penetrava ganhou um cheiro de coisa mofada, de moradia esquecida, o mesmo jeito que a mulher tinha: deixara de lutar, apenas resistia em silêncio. E o silêncio da casa também parecia cheio de mofo, pesado.

Anita era sua companheira, mas nos últimos tempos nem reparava muito nela, ensimesmada, naquele silêncio que comandava a lentidão dos seus gestos tardos nos afazeres da cozinha. Quando o marido chegava para jantar ela se recolhia ao quarto, Anita era quem servia à mesa. Mas se ele estava bêbado, o que não era raro, erguia-se durante a refeição, abria a porta da camarinha sem janelas, sem uma palavra apontava a cadeira do outro lado da mesa. A mulher obedecia, em silêncio. Ele voltava a comer, seu corpo grande dominava com ruído o ambiente, os braços grossos e peludos se moviam com energia. Os olhinhos estreitos e vivos evitavam a mulher. Mas eram irresistivelmente atraídos para ela e pareciam não poder suportar-lhe o ar de mártir, aquela expressão de sofrimento sem remédio causava no marido uma irritação que aumentava a cada instante. Ela o sentia e, de repente, tentava levantar-se, voltar ao quarto. Do outro lado da mesa ele se erguia bruscamente, caminhava até ela, cedia ao impulso incontrolável e engrolando insultos com a boca cheia, punha-se a bater-lhe. Anita vinha correndo da cozinha, segurava-lhe os braços até que a mãe, aos recuos, caía de joelhos diante do nicho no fundo da sala. O pai desvencilhava-se com um safanão e saía batendo a porta.

Embora tomando o partido da mãe, Anita se sentia atraída pelo pai, apesar de condenar-lhe o procedimento. Ele era uma criatura estranha àquele ambiente de penumbra e de silêncio, de submissão ao sofrimento e ao pranto. Grandalhão, ruidoso, mesmo quando queria se mostrar manso sua voz era poderosa e penetrante. Para Anita ele era também uma criatura de mistério, cheia de um fascínio terrível: ela sabia onde era a rua da “sujeita”, a casa pintada de verde-garrafa com janelas azuis, na ponta da cidadezinha. Quando ia à feira, aos sábados, fazia um rodeio para não passar por ali. (...)”.

Ressalto, a título de curiosidade, a importante contribuição de James Amado para que uma das obras mais conhecidas e festejadas do seu ilustre irmão fosse levada às telinhas de televisão e se tornassem populares e acessíveis a um público não especializado em Literatura. Refiro-me ao enredo de “As mortes de Quincas Berro D’Água”, que ele adaptou para um “Caso Especial” da Rede Globo, exibido em 1998, que fez história na TV. Assisti, boquiaberto, a essa apresentação e fiquei tão impressionado (ou encantado, como queiram) com seu realismo e perfeição, que tenho na memória até detalhes aparentemente ínfimos, desses que em geral passam batidos do espectador, dessa obra-prima literária, que se tornou, também, primor no que diz respeito à dramaturgia.

Pudera! O referido “Caso Especial” foi uma feliz e rara conjunção de gênios que só acontece de quando em quando. A história, como destaquei, é de um dos escritores brasileiros mais conhecidos, lidos e festejados através do mundo. A direção esteve a cargo de ninguém menos do que Walter Avancini, que dispensa comentários. O elenco contou com uma constelação magnífica de astros e estrelas incontestáveis, como Paulo Gracindo, Dina Sfat, Stênio Garcia, Flávio Migliaccio e Antônio Pitanga. Mas entendo que essa perfeição provavelmente (diria, certamente) não seria atingida sem a competentíssima adaptação do livro para a TV feita por James Amado. É questão de justiça, portanto, nunca perder de vista este fato.


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