Wednesday, February 26, 2014

Historiador com talento de ficcionista

Pedro J. Bondaczuk

O décimo sexto integrante (por ordem de publicação) da antologia de contos “Histórias da Bahia” (Edições GDR, Rio de Janeiro, 1963), que tomei como referência para esta série de estudos sobre 23 dos principais ficcionistas baianos, é Luiz Henrique Dias Tavares. Trata-se de um dos intelectuais mais ilustres e reconhecidos entre todos os que já abordei (e dos que ainda irei abordar) nestas tantas considerações que tenho a oportunidade de fazer e de partilhar com os leitores. E esse destaque é tanto na Literatura (regional e nacional), quanto na atividade acadêmica.

Nosso personagem dedicou décadas e mais décadas de vida á atuação como historiador e como requisitado professor universitário de História. Neste último caso cito, apenas para que não pareça que estou exagerando sua importância e seu prestígio, que recebeu, se não me falha a memória em março de 2007, o título de “doutor honoris causa” da Universidade Federal da Bahia. Para que o leitor tenha uma idéia da importância dessa homenagem, basta informar que Luiz Henrique foi, apenas, o terceiro a ser reconhecido com essa láurea. Os outros dois foram Thabo Mbeki – ex-presidente da África do Sul e sucessor de Nelson Mandela, de quem foi companheiro de lutas  – e o dramaturgo Abdias do Nascimento.

Sua dedicação ao magistério, e à pesquisa histórica não o impediram de ser um dos maiores escritores da Bahia e do País. Ouso afirmar, até, que seu sucesso literário tem muito a ver com essas duas atividades correlatas. E ele destacou-se tanto em ficção (daí integrar a antologia “Histórias da Bahia”), quanto em não-ficção. No primeiro caso, publicou nove livros – embora só um de contos, mas vários deles são novelas – com destaque para a mais recente delas, “Nas margens do leito seco”, datada de 2009. A propósito dela tratarei, em texto separado, oportunamente, pela sua importância na obra do escritor.

Luiz Henrique Dias Tavares nasceu em Nazaré, cidade do Recôncavo Baiano, em 25 de janeiro de 1926. É um dos integrantes da chamada “Geração dos Cadernos da Bahia”, que revelou magníficos escritores do porte de Vasconcelos Maia, James Amado e José Pedreira, entre tantos outros. Exerceu, a exemplo de tantos companheiros de letras, por algum tempo, o jornalismo. Fundou, por exemplo, com Ariovaldo Matos e Darwin Brandão, a revista “Evolução”, que viria a ser fechada, pelo DIP, durante a ditadura de Getúlio Vargas, pelo tom crítico e independente que adotava. Participou de outros movimentos culturais em Salvador, que influenciaram a cultura e as artes do seu Estado. Um deles foi o “Teatro de Estudantes”, com Heron de Alencar.

Como se vê, Luiz Henrique nunca foi aquele tipo de escritor que se restringe a escrever, isolado em seu gabinete de trabalho, sem contato com o público (embora não haja demérito algum em quem age dessa maneira). Foi um ativista, no mais legítimo sentido do termo, e nos campos da política, das artes e da cultura em geral. E, claro, das letras. Doutorou-se em História em 1961, ano em que assumiu a cátedra de História do Brasil na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências da Universidade Federal da Bahia. Na mesma época, lecionou essa mesma disciplina no principal colégio estadual soteropolitano. Pouco depois, obteve o pós-doutorado no exterior, na Inglaterra, na renomada University of London.

Foi diretor do Arquivo Público do Estado e membro do Conselho Estadual de Cultura. Durante anos, foi cronista do “Jornal da Bahia” e publicou importante livro do gênero, “Moça sozinha na sala” (Livraria Martins Editora), datado de 1960, tão bom que obteve, com ele, o Prêmio Carlos de Laet, da Academia Brasileira de Letras do ano de 1963. A condição de historiador contribuiu muito, em vez de eventualmente atrapalhar, na narrativa de ficção de Luiz Henrique Dias Tavares. Muitos dos enredos de seus contos e, sobretudo, de suas novelas, foram fatos reais, acontecidos mesmo, que ele soube dar o devido tratamento ficcional. Aliás, ele admitiu isso, em entrevista concedida em 2005, ao afirmar: “Meus conhecimentos maiores são da história baiana. Então minhas novelas não deixam de ter uma marca histórica”. Convenhamos, são raros os historiadores que conseguem promover este “casamento” perfeito entre a ficção e a realidade.

A também historiadora Patrícia Valim comentou, certa feita, sobre essa facilidade do seu ilustre colega em “descobrir” nos documentos, aspectos que passam batidos de outros pesquisadores. Comentando seu livro “Conjuração baiana”, conhecida também como “Revolta dos Alfaiates”, um dos mais completos já publicados sobre esse episódio da História do Brasil no Sul do País, ela observou: “Ele (Luiz Henrique) tem muita sensibilidade para pesquisa em arquivos. É algo que talvez parte da historiografia sobre a Conjuração não tenha. Ele não vai aos documentos apenas para comprovar aquilo que já sabe. Quando foi diretor do Arquivo (Público do Estado), ajudou muito a ampliar a documentação sobre aquele episódio da história baiana”.

Para não deixar o leitor no ar, esclareço no que consistiu a tal conjuração. Foi um movimento que estourou na Bahia em 1798 – pouco depois da Inconfidência Mineira que resultou no enforcamento de Tiradentes – liderado por alfaiates, que propunha, entre outras coisas, a emancipação daquele Estado de Portugal e a libertação dos escravos. Pouca gente sabe que essa revolta popular sequer existiu. Luiz Henrique, porém, não apenas a trouxe à baila, como detalhou todas suas circunstâncias e resultados (mais ou menos parecidos com o que se verificou em Minas Gerais). Voltarei a tratar desse personagem, que conseguiu “casar” ficção e realidade em sua riquíssima obra ficcional.


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