Astro das letras à
prova de contestações
Pedro
J. Bondaczuk
O décimo segundo
escritor (por ordem de publicação) a ter conto incluído na antologia “Histórias
da Bahia” (Edições GDR, Rio de Janeiro, 1963), que tomei como referência para
esta série de estudos sobre alguns dos principais ficcionistas baianos, é João Ubaldo
Ribeiro. Após estudar alguns aspectos sobre sua vida e, sobretudo, sobre sua
vasta, eclética e incontestável produção literária, fico me questionando sobre
o que mais poderia escrever a seu respeito que alguém já não tenha escrito, e
com muito mais propriedade do que eu. Concluo: nada! Isso não quer dizer que me
omitirei de “palpitar” a propósito, até porque tenho um carinho muito
particular por esse homem de letras. Por que? Por todos os motivos imagináveis:
quer por razões literárias, quer pelas estritamente pessoais.
Quanto ás primeiras,
João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro, nascido em Itaparica, ilha que fica bem em
frente a Salvador, em 23 de janeiro de 1941, conquistou tudo o que um escritor
possa aspirar. Ou melhor, quase tudo. Falta-lhe, somente, o Nobel de
Literatura, que não duvido nada que venha conseguir nos próximos anos, quem
sabe, até, já em 2014, caso sua postulação, claro, seja apresentada junto à
Academia Sueca. Currículo para tal ele tem e de sobra. Mas se não conquistou,
ainda, a honraria mais badalada do mundo das letras, obteve uma de peso quase
equivalente, pelo menos em língua portuguesa: ganhou o Prêmio Camões de 2008.
João Ubaldo Ribeiro
conta com o reconhecimento – não digo “unânime”, mas quase – pois como Nelson
Rodrigues enfatizou um dia, “toda a unanimidade é burra” - dos seus pares. Prova disso é que foi
eleito, em 1993, para a Academia Brasileira de Letras, onde ocupa a cadeira de
número catorze, sucedendo o ilustre jornalista e escritor Carlos Castelo
Branco. Vários dos seus livros foram adaptados para o cinema e para a televisão
e foram inquestionáveis sucessos. É até redundante mencionar quais, por serem
de conhecimento público. Afinal, qual cinéfilo renitente não conhece, por
exemplo, “Sargento Getúlio”, dirigido por Hermano Penna, estrelado por Lima
Duarte? Ademais, essa obra cinematográfica recebeu vários prêmios, nacionais e
internacionais, em 1983, puxado pelo admirável enredo. Não citarei outros
filmes para não ser redundante em demasia. Mas mencionarei adaptações de duas
de suas histórias para a televisão.
Por exemplo, seu
romance “O sorriso do lagarto” foi adaptado, em 1991, para uma minissérie
memorável da Rede Globo. Quem assiste TV com freqüência (e raros são os
brasileiros que não assistem) certamente se lembra dessa história, que teve,
como principais protagonistas Tony Ramos, Maitê Proença e José Lewgoy. É pouco?
Então o que dizer do Caso Especial, da mesma emissora, baseado no livro “O
santo que não acreditava em Deus”, levado ao ar em 1993 e estrelado por Lima
Duarte? Poderia citar outras obras de João Ubaldo adaptadas para a telinha ou
para a telona, mas não o farei. Seria redundância em excesso da minha parte.
Há, pois, como
contestar uma carreira literária tão bem-sucedida? E olhem que sequer mencionei
que seu romance “Viva o povo brasileiro” virou samba-enredo da escola de samba
Império da Tijuca e abrilhantou o desfile do Rio de Janeiro, no Carnaval de
1987. Conhecido, como o leitor vê, João Ubaldo é e, sobretudo, é popular. Ele
consegue a rara façanha de ser familiar até para quem nunca leu um reles livro
em toda sua vida e, mais: até pelo mais convicto dos analfabetos.
Como encontrar, pois,
coisas novas, a propósito de sua trajetória na Literatura, que alguém já não
tenha dito ou escrito? Será que existem? Não sei! Ainda assim, tentarei
comentar aspectos de sua vida e carreira, os não muito enfatizados por pessoas
muito mais competentes do que eu. Tentarei, mas não garanto que terei sucesso.
Ainda não citei, é verdade, os tais motivos pessoais que me levam a estudar com
carinho especial a trajetória e a obra de João Ubaldo. Eles são tantos, e tão
inusitados, que terei que fazer isso em outro dia, que não hoje e com mais
vagar.
O curioso é que, quando
a antologia “Histórias da Bahia” foi publicada, em 1963, essa figura consagrada
da Literatura estava recém dando os primeiros passos como escritor. Não tinha
nenhum livro ainda, não pelo menos “solo”, publicado. E sua produção literária
restringia-se a colaborações esparsas nos jornais de Salvador. Aliás, havia
publicado, sim, alguns contos, mas numa obra coletiva, junto com David Salles,
Sônia Coutinho e Noênio Spinola. Essa mini-antologia foi intitulada de
“Reunião”. Quando “Histórias da Bahia” foi lançado, em 1963, João Ubaldo tinha
apenas 22 anos de idade. Foi, de acordo com o organizador dessa antologia (que
a editora sequer identifica) uma das quatro “apostas” feitas pelo editor. E,
convenhamos, quem apostou nele, seja lá quem for,, acertou bem na mosca.
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