Saturday, November 11, 2017

Postura de estadista



Pedro J. Bondaczuk



O presidente eleito, Fernando Henrique Cardoso, vem mantendo extrema cautela em relação ao governo de Itamar Franco, a menos de dois meses do seu final. Conserva uma postura ética impecável, procurando não esvaziar a atual administração, à qual serviu como ministro de Relações Exteriores e da Fazenda.

Age, portanto, de forma muito diferente de outros, no passado, que sob o pretexto de fazerem a transição, virtualmente antecipavam o início de seus mandatos. Aliás, desde que os resultados das eleições confirmaram sua consagradora vitória, vem mantendo um silêncio absoluto na imprensa nacional. Todas as declarações que deu foram feitas no Exterior. Primeiro, em seu giro pelo Leste europeu e agora, em sua visita oficial aos países do Mercosul.

Sequer indicações sobre seu futuro ministério FHC deu, para não tumultuar os últimos dias do governo Itamar. Balões de ensaio foram lançados, mas acabaram se esvaziando por falta de confirmações ou desmentidos.

Tomara que esta postura ética seja uma indicação de como será a sua gestão. O País precisa de equilíbrio, de ação, de diálogo e de entendimento e não de confronto, de retórica, de controvérsias e de tanta coisa nociva que envenena a política e deslustra a imagem dos homens públicos aos olhos da população.

Aliás, as declarações de Fernando Henrique Cardoso impressionaram seus interlocutores. Suas atitudes e palavras têm sido as de um estadista, que revela estar preparado para a difícil missão que terá pela frente.

Equilíbrio e otimismo em relação ao futuro do País tem sido a tônica de seus pronunciamentos. No plano econômico, FHC assegurou a continuidade do Plano Real, que deverá ser acompanhado de quatro reformas básicas que o consolidem: a tributária, a do Estado, a previdenciária e a política.

Em seu pronunciamento de quinta-feira, na Argentina, afirmou que a economia do Brasil precisa crescer, em média, 7% ao ano, para que se torne possível um combate eficaz à miséria que assola parcela considerável da população. A crise social somente poderá ser superada mediante a retomada do desenvolvimento e a adoção de um modelo que corrija a atual e absurda concentração de renda.

A ênfase dada à necessidade de crescimento significa que o presidente eleito não cogita de lançar mão de estratégias que conduzam à recessão. A paralisação (ou a redução de ritmo) das atividades produtivas, além de não deter a espiral inflacionária, apresenta, como terríveis sequelas, o desemprego em massa, a violência, a fome, o absurdo aumento da mortalidade infantil e a miséria. Ou seja, tudo o que conduz um país à desagregação e ao confronto interno.

Fernando Henrique é um emérito negociador, um articulador político, que nada fica a dever ao saudoso presidente eleito (e jamais empossado) Tancredo Neves. Tem o dom de transformar ferrenhos adversários, senão em aliados, ao menos em colaboradores.

Exemplo da sua postura moderada foi a declaração que fez em Buenos Aires, sobre seu principal oponente nas eleições presidenciais que venceu, Luís Inácio Lula da Silva. Respondendo a um repórter, afirmou que o líder petista é “mais inteligente do que a maioria dos intelectuais”.

Oxalá FHC confirme as expectativas dos 35 milhões de brasileiros que confiaram nele e faça um governo competente e honesto, que implante as bases de um novo Brasil, vigoroso, produtivo, integrado e socialmente mais justo.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 5 de novembro de 1994).



Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk

No comments: