Friday, July 13, 2012

Vítima das circunstâncias

Pedro J. Bondaczuk

O primeiro-ministro japonês, Sousuke Uno, foi vítima das circunstâncias, ao ser envolvido num escândalo sexual, que redundou na derrota do seu partido, o Liberal Democrático, nas eleições parlamentares realizadas anteontem nesse país, para a renovação da metade das cadeiras da Câmara Alta do Parlamento.

Seu fracasso nas urnas acabou fazendo história (a vida tem dessas ironias), já que o PLD nunca tinha perdido um pleito desse tipo desde a sua fundação, em 1955. O interessante foi o fato de um “affaire” amoroso ter provocado essa catástrofe política, justamente numa sociedade francamente machista, onde tais “escapadinhas” extraconjugais, quando se tratavam de homens públicos, eram encaradas, até aqui, como coisas normais.

Na verdade, o que baleou Uno foi a sua fama. Afinal, quando ele assumiu a chefia do gabinete, há somente sete semanas, em substituição a Noboru Takeshita, também envolvido num escândalo, só que de tráfico de influências, foi cantado e decantado como um cidadão inatacável. Tanto é que chegou a ser apelidado de “Senhor Puro”.

Qual não foi, porém, a surpresa dos japoneses, ainda revoltados com o caso do antecessor, ao lerem, numa dessas revistas dedicadas a fofocas, que o novo chefe de gabinete não tinha tanta pureza assim como se imaginava. Que em 1985 havia comprado, por cinco meses, os favores sexuais de uma gueixa.

Se o caso viesse à tona, digamos, em dezembro próximo, é possível que sequer chegasse a ser notado pela opinião pública. Provavelmente não adquiriria a repercussão que adquiriu. Uno, em momento algum, admitiu o “affaire” amoroso. Pode até ser que tudo não passasse de boato. Mas as circunstâncias estavam nitidamente contra ele.

O caso, que começou com um rumor, de repente ganhou enormes proporções. E a oposição socialista, liderada por uma mulher inteligente e carismática, Takako Dói, explorou ao máximo a situação. Criou um clima cada vez mais hostil contra o primeiro-ministro, que passou a ser vaiado pelas eleitoras onde quer que fosse. A derrota de seu partido esteve longe, muito distante, portanto, de significar qualquer surpresa para quem quer que fosse.

Estariam os eleitores errados em exigir moralidade dos homens públicos? Seria condenável a estratégia de exploração de um episódio particular, por parte dos oposicionistas, para colher dividendos eleitorais? Teria havido quebra de ética dos socialistas ao partirem nitidamente para uma retaliação pessoal? Evidentemente que não!

Afinal, como diz o surrado clichê, “quem sai na chuva é para se molhar”. E desde que alguém decide entrar para a vida pública, todos os fatos que lhe digam respeito passam a ser como um livro aberto. Se algum for desabonador...


(Artigo publicado na página 15, Internacional, do Correio Popular, em 25 de julho de 1989)

 
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