Tuesday, May 01, 2012

Muitas versões e nenhum consenso

Pedro J. Bondaczuk



A Bossa Nova caracterizou-se por um início impactante, que chegou a chocar os meios artísticos e culturais (negativa e positivamente, conforme o caso) – houve quem chegasse, por exemplo, ao extremo de dizer que era uma espécie de “Semana da Arte Moderna” da década de 60, com igual importância para a nossa cultura como havia sido o movimento de fevereiro de 1922 – teve um meio genial e bem sucedido e um fim desgastante e melancólico. Morreu de morte natural. Esgotou suas propostas e foi substituída, no cenário da MPB, pela Tropicália e por outras tantas tendências surgidas desde então.



Os críticos e os historiadores divergem a propósito de qual teria sido o marco inicial da Bossa Nova. Uns, situam-no em 1957, com o lançamento, por Carlos Lyra, da gravação “Criticando”. Essa composição era uma miscelânea de ritmos díspares, com acordes de rock balada, jazz e bolero. A interpretação era do conjunto vocal “Os Cariocas”.



Outros, todavia, entendem que tudo começou em 1958, com o disco de Elizeth Cardoso, então a cantora mais consagrada e de maior sucesso do País, “Canção do amor demais”, em que aparecia um violonista tocando com uma batida tão diferente (sincopada) a ponto de se deixar de prestar atenção à perfeita interpretação da “Divina”, como sempre genial e impecável, e atentar, apenas, no instrumentista. E este era ninguém menos que João Gilberto.



Há, ainda, quem atribua ao temperamental cantor baiano, de voz sussurrante, mas com impecável afinação, a “paternidade” do movimento. Para estes, a Bossa Nova nasceu, de fato, com o lançamento do disco de 78 rotações “Chega de saudade”, histórica composição da dupla Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim (ou, simplesmente, Tom) e Vinícius de Moraes. Claro que essa dupla dispensa qualquer apresentação. Essa gravação de João Gilberto foi lançada em 10 de julho de 1958.



A maioria dos historiadores, no entanto, coloca como ponto de partida da Bossa Nova o histórico show, promovido por Sidney Frey, presidente da norte-americana Audio Fidelity, com o apoio do Itamaraty, realizado no Carneggie Hall, de Nova York, em 21 de novembro de 1962. Dessa maneira, o movimento estaria prestes a completar 50 anos, ou seja, meio século, no final deste ano de 2012.



Numa coisa, porém, todos concordam (e é o único ponto sobre o qual há consenso): a Bossa Nova balizou todo um período de transformações políticas, econômicas, sociais e comportamentais que marcou tanto a História do Brasil, quanto a do mundo. Como tudo o que é novo (e o movimento trazia o signo da novidade já no próprio nome), agradou alguns, descontentou outros, mas não passou batido. Adeptos e adversários hoje admitem seu caráter inovador. Não há como negar isso.



Há muita gente que pergunta, ainda hoje, a razão da Bossa Nova ser “batizada” dessa forma. A controvérsia em torno da denominação, destaque-se, não é menor do que a que cerca sua origem. As versões a esse propósito são muitas. E, óbvio, até hoje não se chegou a nenhum consenso a esse respeito. Creio que jamais se chegará, embora, na prática, isso pouco importe.



A palavra “bossa” deriva do francês “bosse”. O mestre Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, em seu Novo Dicionário da Língua Portuguesa, atribuiu-lhe oito significados, indo desde “inchação, galo, protuberância, corcova”, a “aptidão, queda, pendor, vocação”. Na gíria (também catalogada pelo dicionarista), a expressão quer dizer “atributo ou qualidade peculiar a pessoa ou coisa , que fazem que elas agradem, chamem a atenção, se distingam de uma ou das outras”.



Bossa Nova, em certo período, extrapolou, na linguagem popular, a mera designação de um movimento musical. Passou a caracterizar tudo o que fosse diferente, moderno, e que fugisse do convencional.



Fernando Bastos de Ávila definiu da seguinte maneira essa tendência, em sua “Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo” (lançada em 1967 pelo antigo MEC): “Movimento de rebeldia, segundo uns, de renovação, segundo outros, da música popular brasileira, especialmente do samba. Caracteriza-se por tons monocórdios e por saltos do ritmo. Tem gozado de relativo sucesso entre a juventude, concorrendo com outros ritmos provindos dos Estados Unidos e da Europa, especialmente com a produção dos famosos Beatles ingleses. A expressão começa a ser estendida a outros setores artísticos, especialmente à pintura, com significado da busca de novos padrões”. Por hoje é só.

Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk

No comments: