Wednesday, May 02, 2012

Bossa intelectualizada

Pedro J. Bondaczuk

A Bossa Nova – ao contrário do samba clássico, genericamente chamado, nos círculos mais íntimos, de “sambão”, que surgiu nas rodas de terreiros dos arrabaldes do Rio de Janeiro – apareceu, basicamente, na elitizada Zona Sul carioca. É fruto típico da classe média intelectualizada, dos barzinhos da moda e dos apartamentos de luxo de Copacabana, Ipanema e Leblon. Teve importância inestimável ao projetar, no cenário musical, músicos talentosíssimos, que até então serviam, meramente, de “partners” para cantores de voz empostada na execução de bolerões dramáticos e de sambas-canções românticos, tipo dor de cotovelo.



Ritmo e letra foram preponderantes, foram as chaves para o sucesso da Bossa Nova. A melodia tornou-se complexa, inovadora no cenário musical brasileiro. Foi, como o texto de um fascículo da Editora Abril, “O som brasileiro, do lundu à Tropicália”, assinalou, com propriedade: “Quem já teve um violão na mão e conhece os rudimentos de sua técnica, sabe que com três posições (acordes básicos) de uma tonalidade é possível acompanhar toda uma infinidade de canções tradicionais; na Bossa Nova isso não era mais possível, pois as complicadas incursões melódicas exigiam um encadeamento harmônico mais evoluído”.



No que se refere às letras das composições, houve, também, enorme salto qualitativo, com a participação de letristas de cultura superior, em geral respeitados poetas nos meios literários, além de diplomatas e profissionais liberais. A música popular deixou, definitivamente, de ser tarefa para “malandros”, ou seja, atividade considerada “marginal”, para ganhar maior status, gabarito artístico, projeção inclusive (ou principalmente) internacional, engajando, entre tantos intelectuais criativos e de gosto refinado, figuras como Newton Mendonça e Vinícius de Moraes, por exemplo, entre tantas outras.



Sou um tanto suspeito para avaliar a Bossa Nova. Participei diretamente dela. Atuei como letrista, em parceria com vários músicos, embora não me conste que qualquer das minhas composições tenha sido gravada. Por que? Nunca soube e, a bem da verdade, nem me interessa saber. Para mim o que conta é a emoção de haver participado ativamente da composição de dezenas de canções, todas elas, sem exceção, de amor. Isso me basta.



Só posso testemunhar, por havê-la sentido com enorme intensidade, que é uma sensação indescritível, sobretudo de orgulho (aquele sadio que nos advém da certeza da excelência de alguma obra que produzimos) poder ouvir um poema que se compôs, musicado e interpretado com garra e com paixão por algum afinado cantor. E posso garantir que minhas letras, posto que introspectivas (característica da minha obra poética), nada têm a ver com barquinhos, ondas do mar, gaivotas etc. que marcaram determinadas composições da Bossa Nova e que agradaram a uns, mas desagradaram a outros tantos. Aliás, como acontece com tudo o que se faz na vida, notadamente nas artes. É como diz o vulgo: “não se pode agradar, simultaneamente, a gregos e troianos.



A despeito do seu caráter, digamos, antipopular, o movimento, muito bem divulgado e trabalhado por pessoas competentes e hábeis, “emplacou”, mesmo entre as camadas populares, as mais humildes da população. Afinal, bom gosto não é questão de status econômico e/ou social, nem de sexo, idade etc. Ou o sujeito tem ou não tem. Nesse aspecto, no de uma arte musical refinada, mais elaborada e de inegável valor artístico, a Bossa Nova exerceu, até mesmo, um papel didático, que influenciou, de uma forma ou de outra, praticamente todos os movimentos que a sucederam.



Forçou, por exemplo, muito músico de “ouvido” a estudar, a pesquisar e a aprimorar sua técnica de execução para acompanhar a tendência da moda, sob o risco de ficar desempregado. Teve o papel, portanto, de uma espécie de escola informal. Além do que, revelou e projetou novos talentos que ofuscaram o “estrelismo” de cantores de vozes potentes, mas de gosto duvidoso na escolha dos respectivos repertórios.



De repente, muitos intérpretes, que não foram dotados pela natureza com cordas vocálicas privilegiadas, em termos de potência, mas que eram sumamente afinados, se deram conta que poderiam também cantar e agradar o público com suas interpretações. Nesse aspecto, sem dúvida, quem se destacou sobremaneira foi o baiano João Gilberto. A despeito do seu temperamento, digamos, um tanto difícil, conquistou um público cativo, no País e no Exterior.



O tipo de música que estava sendo composto naquele período, intimista por excelência, com versos de reconhecida qualidade e intenso apelo emocional, e praticamente sussurrados (como se ditos com paixão ao ouvido da pessoa amada no momento mais intenso de amor), permitia essa façanha a cantores que antes nunca haviam ousado se colocar como tal. Isso, com certeza, foi outro dos fatores que contribuíram para o sucesso da Bossa Nova, que assumiu o papel de uma espécie de “trilha sonora” de muitos namoros, que resultaram em casamentos. Mas... essa já é uma outra história...

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