Sunday, December 18, 2011







Talvez não haja nova oportunidade

Pedro J. Bondaczuk

O líder da Organização para a Libertação da Palestina, Yasser Arafat, demonstrou, em seu discurso pronunciado, ontem, na Assembléia Geral das Nações Unidas, em sessão realizada na sede européia da entidade mundial, em Genebra, uma de suas muitas virtudes: a flexibilidade. É verdade que em seu pronunciamento, mais uma vez, ele deixou de reconhecer, explicitamente, como os Estados Unidos queriam, o direito de Israel à existência.

Fê-lo somente de maneira implícita, o que, convenhamos, não deixa de ser um avanço. O próprio Departamento norte-americano de Estado viu pontos interessantes na fala do líder. Afinal, até pouco tempo atrás, os palestinos tinham como objetivo máximo "jogar os israelenses no mar".

Hoje, mais amadurecido e agindo com maior realismo, Arafat aceita por pátria não mais todo o território da antiga Palestina, que era administrada pela Grã-Bretanha. Contenta-se com somente as áreas da Cisjordânia e Faixa de Gaza, embora, para atrapalhar, inclua em suas reivindicações territoriais a cidade de Jerusalém, santa para três grandes grupos religiosos e motivo secular de controvérsias entre os fiéis de tais seitas. Outro aspecto que revela sua flexibilidade é a sua disposição de negociar diretamente a paz com seus inimigos de sempre.

O chefe da OLP lembra muito bem a figura mitológica, muito batida, mas no seu caso sempre válida, da "fênix", a ave que renasce de suas próprias cinzas. Em inúmeras situações ele se viu em condições absolutamente irrecuperáveis e ainda assim deu a volta por cima e se recompôs. Como em 1982, quando do ataque israelense a Beirute, quando escapou de ser morto por muito pouco e conseguiu ser retirado num cargueiro grego, expulso de território libanês, numa operação revestida de grande dramaticidade. Ou dois anos depois, em Tripoli, quando foi vencido por radicais palestinos, em combates de inaudita violência, e foi obrigado mais uma vez a bater em retirada.

Em ambas as ocasiões, pregou-se o seu fim como líder do seu povo e a pulverização do movimento que dirige. Arafat, contudo, foi juntando os "cacos" da OLP, fazendo acordos aqui, abrindo concessões ali, contemporizando acolá e quando todos se deram conta, lá estava ele novamente, falando em nome da sua gente, como seu dirigente quase que inconteste.

Talvez Israel e os Estados Unidos estejam perdendo uma rara oportunidade de negociar essa delicada questão com quem tem "cacife" para isso. Um dia esse dirigente pode vir a faltar e pode ocorrer de não surgir alguém com o seu carisma e o seu senso prático que o substitua para tentar estabelecer uma paz firme e duradoura num secular foco de conflitos do mundo.

(Artigo publicado na página 13, Internacional, do Correio Popular, em 14 de dezembro de 1989)

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