Thursday, June 01, 2006

Emoção e talento para "reinventar a vida" - I


Pedro J. Bondaczuk

INTRODUÇÃO

A arte (qualquer uma), como toda a obra humana, é uma tentativa (na maioria das vezes frustrada) do homem sobreviver ao tempo e à memória. Não da fuga da morte “física”, claro, porquanto, óbvio, esta é inevitável, façamos o que fizermos para tentarmos escapar dela, mas de algo que, no meu entender, é muito pior, cruel e definitivo: o esquecimento.
O artista, ao desnudar suas emoções em público, sem nenhum pudor, e trazer à luz o que tem de mais íntimo e profundo em seu interior, deseja, com esse streaptease, conquistar a imortalidade do espírito. Ou seja, preservar para a posteridade um sentimento, uma lembrança, uma reação e um determinado instante, para ele muito especial, “recriando a vida”. E ninguém faz isso com maior competência e autenticidade do que um poeta que, conforme caracterização de Murilo Mendes (no livro “Aproximação do Terror”), “já nasce conscrito, atento às fascinantes inclinações do erro; já nasce com as cicatrizes da liberdade”.
Contudo, esse ser iluminado, que dialoga com os astros e é irmão de todos os bichos e de todas as flores – um misto de libertário e de profeta, de libertino e de asceta, de guerreiro e de santo – esbarra, via de regra, num obstáculo difícil de ser transposto: a indiferença.
O mundo de fantasias que erige, pedra a pedra, palavra a palavra, víscera a víscera, quase nunca é compreendido pela plebe ignara. Às vezes, à procura do tosão de ouro, as pessoas colhem somente seixos sem valor e não enxergam a preciosíssima jóia que está bem à sua frente. E comete enormes injustiças com esses pastores de emoção, que são esquecidos, tão logo venham a morrer (quando não ainda em vida).
Esta coisa traiçoeira e ambígua, conhecida como “sucesso”, raramente é justa com os que a merecem de fato. Indivíduos de real valor, criativos e aplicados, na maioria das vezes têm seus méritos reconhecidos apenas muitos, muitíssimos anos após a morte, isso quando de fato têm. A maioria absoluta não consegue sequer essa extemporânea glória.
Estas minhas considerações descomprometidas e espontâneas não deixam de ser pretensiosas. Têm o objetivo de ser um ato de justiça (posto que ínfimo) com alguns poetas que, embora conhecidos nos respectivos círculos pessoais, principalmente os familiares, embora contem com o reconhecimento de irmãos do mesmo ofício, por uma razão ou outra, principalmente por falta de oportunidade e de divulgação, não conseguiram a projeção que lhes é cabível e alguns, hoje, já estão virtualmente esquecidos.
Tive grandes dificuldades para empreender a pesquisa destinada a fundamentar estas considerações. Salvo um ou outro dos poetas mencionados, cujas obras estão preservadas, da maioria consegui apenas eventuais e esparsas referências, desconexas e não raro contraditórias, o que comprova seu esquecimento. Daí esta tentativa, pelo menos parcial, de trazer a público pelo menos um ou outro dos seus poemas que, como o leitor irá comprovar, são de altíssima qualidade literária. Esquecê-los ou ignorá-los, além de grande injustiça, é um desperdício de talento.
Corro, é claro (dada a minha insignificância e a indiferença generalizada) de me frustrar, nesta tentativa de resgate desses escritores geniais. É possível, senão provável, que este texto elaborado com tanto empenho e seriedade seja lido por muitos poucos, quem sabe, por ninguém, e já na tarde deste dia, caia no completo esquecimento. O que fazer? Se isso acontecer, não será por falta de alerta. Afinal, Jorge Luís Borges já advertiu, há alguns anos, que “o jornalista escreve para o esquecimento, quando seu sonho seria escrever para a memória e o tempo”. O meu empenho, pelo menos, é este.

(CONTINUA)

3 comments:

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