Thursday, June 15, 2006

Sejamos excêntricos


Pedro J. Bondaczuk (*)


O escritor Aldous Huxley, no livro "Ronda Grotesca", afirma que "as coisas que importam acontecem no coração" É óbvio que não se referia ao órgão, à bomba que é responsável pela circulação do sangue através do organismo, mas da sede dos sentimentos.

Esta introdução vem a propósito da forma com que são tratadas determinadas pessoas consideradas excêntricas. Ou seja, que agem de maneira diferente da comum, da convencional, da considerada "normal" pela maioria.

Todos temos pequenas excentricidades e raramente admitimos. Ao contrário, negamos enfaticamente. Uns são diferentes na indumentária, outros no comportamento, outros nas idéias, etc. Essa postura contrária às convenções confere-lhes identidade. Distingue essas pessoas da massa. Torna-as notadas.

A história registra excêntricos célebres, como Salvador Dali, Albert Einstein, Winston Churchill (com seu charuto e seu chapéu-coco) e o dramaturgo George Bernard Shaw (com suas tiradas irônicas e inteligentes), entre milhares de tantos outros. Não seria essa excentricidade uma forma de criatividade? Provavelmente.

A maioria das pessoas, contudo, prefere julgar as outras pela aparência, em vez de tentar entender seus sentimentos, suas motivações e de avaliar, sem preconceitos ou estereótipos, suas ações. O que alguém veste ou deixe de vestir é irrelevante. As pequenas excentricidades podem chamar a atenção, mas não deveriam contar na hora de julgar alguém. Mas contam.

Os excêntricos até que são engraçados. Há um episódio, ocorrido em meados dos anos 60s, que quando me recordo, não consigo deixar de rir, pelo inusitado da cena.

Eu morava, na ocasião, em uma república em Barão Geraldo, distrito de Campinas, que havíamos batizado com o sugestivo nome de "Saudosa Maloca", em homenagem, é claro, ao célebre samba de Adoniram Barbosa, popularizado pelo conjunto Os Demônios da Garoa.

Certa tarde de domingo, um amigo, a quem prezo muito até hoje, a despeito (ou talvez por causa) das suas excentricidades, foi visitar-me, para conhecer o lugar em que eu residia, que tinha uma certa fama, nos meios estudantis, por algumas características pitorescas, que não vêm ao caso.

Tratava-se de pessoa brilhante, culta, fascinante, que cativava qualquer um com sua conversa inteligente e sempre bem-humorada.

Em vários anos de relacionamento, de uma sólida e profunda amizade, jamais havia testemunhado alguma atitude sua que fosse, digamos, insólita. Comuniquei meus colegas de república, antes de sua chegada, sobre a visita, pois queria apresentar-lhes esse amigo, sobre o qual teci os maiores elogios.

Assim que o visitante chegou, foram feitas as devidas apresentações de praxe.

---"Prazer! Eder!"---, disse meu amigo, ao apertar as mãos do Jarbas.

---"Igualmente" ---, balbuciou o mineirinho, que era de pouca conversa, principalmente com pessoas estranhas.

O mesmo ocorreu com o Zé Formiga, o Gerson Carioca, o Zito Baiano e o Barriga Verde, os respectivos apelidos dos meus companheiros de república, cada qual a seu modo, uns com maior expansividade, outros com alguma reserva.

Quebrado o gelo, a conversa rolou animada. Falamos de política (tema tabu, pois estávamos em 1965 e vivíamos, portanto, desde o ano anterior, sob a ditadura militar), futebol, namoro, literatura, música, teatro, etc.

De repente, sem nenhum aviso, intempestivamente, o visitante foi para o meio da sala e plantou bananeira, ficando nessa posição por alguns minutos.

Foi um constrangimento geral. Ninguém entendeu nada. Muito menos eu, o destinatário da visita que, sem jeito, não sabia onde esconder a cara. As reações, como não poderia deixar de ser, foram as mais variadas possíveis, de acordo com o temperamento de cada um.

O Jarbas pediu licença, discretamente, e foi rir no banheiro. Apesar de se esconder, dava para se ouvir perfeitamente o ruído das suas gargalhadas. Chegamos a pensar, até, que estivesse passando mal. Depois, quando a visita foi embora, o mineirinho explicou que o motivo de tanta risada não foi a súbita cambalhota do visitante "meio maluco", mas a cara que eu fiz.

O Zito não se conteve e exclamou, na bucha:

---"Ó xente, bichin!". Não estava entendendo nada. Não sabia se o visitante era assim mesmo ou se estava querendo gozar a nossa cara.

Posteriormente, vim a saber que o Eder praticava ioga, e sempre na mesma hora. E quando chegou o momento da sua prática, não quis nem saber onde estava, com quem ou o quê iríamos pensar.

Um excêntrico... Adorável excêntrico do qual jamais consegui esquecer! Ridículo? Não! Apenas diferente! Um homem fora do convencional.

Aliás, sobre isso, gostaria de encerrar este pitoresco episódio da forma como o iniciei: citando Aldous Huxley, que escreveu:

"Mas todo homem é ridículo quando visto de fora, sem levar em conta o que lhe vai no espírito e no coração. Pode-se transformar Hamlet numa farsa epigramática, com uma cena inimitável, quando ele surpreende sua adorada mãe em adultério. Pode-se tirar o mais gracioso conto de Maupassant da vida de Cristo, fazendo contrastar as loucas pretensões do rabi com seu lamentável destino. É uma questão de ponto-de-vista. Cada um de nós é uma farsa ambulante e uma tragédia ambulante ao mesmo tempo. O homem que escorrega numa casca de banana e fratura o crânio, descreve contra o céu, ao cair, o arabesco mais ricamente cômico".

Que vivam, pois, os excêntricos!!! Antes eles, do que os pilantras, que atormentam, e tornam às vezes muito amargo (ou seria azedo?) o nosso dia-a-dia, quando não toda a nossa existência!

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