Wednesday, June 21, 2006

Ação meteorológica


Pedro J. Bondaczuk



A chuva e o frio acentuam a melancolia nas pessoas e ressaltam a solidão dos solitários, a angústia dos depressivos e a carência afetiva dos despojados de afeto. Aliás, o homem é um ser "meteorológico". O clima influi decisivamente em suas emoções e, por conseqüência, na sua forma de reagir aos estímulos externos. O calor, por exemplo, acentua a violência. Tanto que as estatísticas demonstram que a criminalidade aumenta muito no verão. Já no inverno, o que cresce é o número de suicídios. Em ambos os casos, é a vida que acaba por ser agredida. E no entanto ela é tão preciosa e bela!

Essa influência climática para um artista, seja de que arte for, contudo, costuma ser benéfica. Engendra obras que se tornam imortais. Há pinturas notáveis, de grandes mestres, mostrando a fúria das tempestades, ou campos nevados, ou, como Paul Gauguin, a luminosidade dos mares do Sul nas ilhas do Taiti que brotaram de seu pincel encantado.

No meu caso, funciono geralmente melhor na época do calor, quando fico descontraído e sem inibição. Daí expor-me com mais facilidade, sem muito receio ou escrúpulos, nessa ocasião. Conforme ressaltei recentemente em uma crônica, o verdadeiro escritor é aquele que se expõe por completo. Mas o faz com sinceridade e clareza. Com amor pelo próximo e grandeza.

Em termos de texto, é possível elaborar até mesmo uma alentada antologia, com trabalhos muito bons, tendo o clima por tema. Uma não, várias. Toda uma coleção, envolvendo escritores de todo o mundo. Isto se torna mais fácil ainda na poesia, onde a influência climática se faz sentir com maior intensidade, já que o gênero é quase todo ele sentimento, emoção, paixão.

Há alguns exemplos nesse sentido. Como estes versos de Cecília Meirelles: "E eis a névoa que chega, envolve as ruas,/ move a ilusão e figuras./A névoa que se adensa e vai formando/nublados reinos de saudade e prantos". Lindo poema, não é verdade? Como ele, há inúmeros, de poetas nacionais e estrangeiros.

Citaria, entre tantos que li e anotei, este outro, da mesma escritora, uma das minhas prediletas: "No meio do mundo faz frio/faz frio no meio do mundo/muito frio.//Mandei armar o meu navio/volveremos ao mar profundo/meu navio.//No meio das águas faz frio./Faz frio no meio das águas/muito frio". São versos melancólicos, envolventes, de intenso conteúdo emocional. São daqueles que nos dão inveja e dos quais gostaríamos de ser os autores.

Para não me ater apenas aos poetas brasileiros, poderia mencionar um poema que já transcrevi em outra crônica, de Fernando Gregh, com precisa e preciosa tradução de Guilherme de Almeida, intitulado "Chove": "Chove./A vidraça chora.//O vento põe no parque um soluço de outono./Range uma porta e bate, e parece que implora/numa voz de abandono./Chove.// Dir-se-ia que milhões de alfinetes acertam/nos vidros frios e se espetam.//Chove./A vidraça chora.//O sol esconde a última nesga azul, que existe,/sob um manto cinzento e móvel./Chove./A vida é triste.//---Que importa!/Ulule o vento, bata a porta/e tombe a chuva!/Que importa!//Tenho nos olhos um clarão que nada turva,/tenho na vida um céu azul e imóvel; tenho na alma um jardim ondulante de palmas/balançando em pleno anil por brisas calmas:/eu penso nela!//Chove...//--- A vida é bela!".

E é mesmo. E torna-se melhor diante da existência desses seres mágicos, que criam estrelas brilhantes mesmo tendo a lama dos pântanos por matéria-prima. De todas as atividades exercidas pelo homem, só a arte é nobre. Sua utilidade não é material. Sua finalidade é o enriquecimento do espírito humano. É um banquete delicioso de beleza, para saciar a fome estética das pessoas inteligentes e de bom gosto. Um povo é tanto mais civilizado quanto mais artistas tiver.

Enquanto o indivíduo comum faz da exasperação causada por uma onda de forte calor pretexto para agredir os semelhantes, o poeta elabora um poema. "Estou sozinho no quarto./ Estou sozinho na América...", desabafa Carlos Drummond de Andrade, em obra escrita em uma noite muito quente do Rio de Janeiro. Enquanto uma pessoa que não possua qualquer dote artístico pensa em se matar, com a exacerbação da carência afetiva que sofre num garoento e frio dia de inverno, um Fernando Gregh tece louvores às delícias do amor e conclui que a vida é bela. E é mesmo! Basta que tenhamos os olhos sempre abertos para apreciar o muito de bom que ocorre ao nosso redor.

1 comment:

Maria do Carmo said...

Venho buscando a anos os versos que li aos sete ou oito anos de idade de um livro de papel rústico brochura e sem capa, amarelado pelo tempo e marcado com o derrame de café,era de minha mãe, ela vive , mas não se lembra mais dêle.Agora com 82 a. de idade. Fui para a escola primária, segui a vida e nunca esquecí tal livro ele me prendia pela chuva , pelo vento que ululava e batia a porta. Era só o que eu lembrava. não sabia do autor nen da editora nen porque um lado da fôlha estava em francês e o outro em português. À pouco no orkut em uma das comunidades a que me associei, deixei recado, se algúem souber donde vem estes versos de quem é esse poema por favor me informe. E hoja tive a GRAÇA de ser informada e navegando em busca de mais e mais informações encontrei sua página. Obrigado por publicá-la, é como se desvendassem meus olhos míopes e deixassem entrar o sol o brilho da vida o vento e a chuva , garôa gostosa e úmida de SAMPA dentro da minha alma denovo. Ha! que prazer imenso, poder ler esses versos novamente pensei que morreia e jamais o leria novamente. Obrigado, muito, muito , obrigado. De Coração.