Sunday, July 17, 2011







Realidade insuportável

Pedro J. Bondaczuk

A espécie humana não pode suportar muita realidade”. Quem deu essa declaração tão enfática, peremptória e afirmativa foi um poeta: foi o norte-americano, naturalizado inglês, T.S. Elliot, ganhador de um Prêmio Nobel de Literatura. Quase concordo com ele. Para concordar, de fato, eu substituiria a palavra “muita”, da sua citação, pelo artigo feminino “a”. E a declaração ficaria assim: “A espécie humana não pode suportar a realidade”. Quem, o tempo todo, a vivesse por completo, nua e crua, com todo seu horror e violência, ou pensasse exclusivamente nela 24 horas por dia, certamente ficaria louco ou chegaria ao extremo de dar cabo da vida. É como olhar o sol de frente, sem nenhuma espécie de proteção. Ao cabo de minutos, quem cometesse essa burrice ficaria cego.

Aliás, para o físico Albert Einstein, um dos mais lúcidos e reconhecidos gênios que já pisaram sobre a Terra, a realidade sequer existe. Em seu livro “Como vejo o mundo” afirmou que ela “é apenas uma ilusão, ainda que muito persistente”. Sei que o tema, em sua conotação, digamos, filosófica, é bastante complexo para o senso comum. Conduzir pessoas não afeitas ao raciocínio e à reflexão a pensar séria e maduramente nisso é muito complicado, se não impossível. “Que bobagem é essa de que a realidade não existe?!”, indagarão, simultaneamente exclamando, os céticos e os alienados que, todavia, se julgam “realistas”. Como explicar-lhes isso em meia dúzia de parágrafos? Sequer tentarei.

Ressalto que essa não é a minha opinião, mas a de Einstein. A minha, com a devida ressalva que fiz, é um tanto parecida com a de T. S. Elliot, porquanto mais abrangente. É a de que “a espécie humana não pode suportar a realidade”. Não, pelo menos, o tempo todo. Daí inventar derivativos, como as artes (a poesia e a literatura em geral, a música e a pintura etc.etc.etc.), em que se pode criar arremedos de “realidade”, posto que atenuados, expurgados do horror, adoçados, mesmo que seus autores julguem estarem lidando com ela nua e cruamente. Não estarão. É como olhas para o sol, mas com a devida proteção, o que impede a fatal queimadura da retina.

Incluem-se nesses derivativos os esportes, que não passam de brinquedos, como os das crianças, mesmo que em alguns casos (não em todos), benéficos à saúde, com o acréscimo do fator competitividade. Qual a utilidade, para o espectador, do futebol, do basquete, do vôlei e de outras tantas modalidades, se não os divertir e os distrair, dessa forma, dos horrores da realidade? Obviamente, nenhuma!

Admitam ou não, a esmagadora maioria dos 6,7 bilhões de pessoas que habitam o Planeta permanece doce e ilusoriamente alienada, ou por livre escolha ou em decorrência das circunstâncias, a despeito dos sofisticados meios de informação existentes, como rádio, TV, computador e telefones fixo e celular. O que lhe falta, portanto, não são recursos para se informar sobre as desgraças, mazelas e patifarias do cotidiano, mas consciência da necessidade de detectar (ou pelo menos tentar) a realidade nua e crua, em toda sua feiúra e horror, e transformá-la para melhor, quando negativa (o que ela de fato é, pelo menos na maioria dos casos).

Morris West constatou, no romance “A Torre de Babel”: “A mais primitiva luta pela identidade se centraliza no ser, no ser fraco, no ser ignorante e vulnerável. Exige muito tempo e uma educação penosa antes que o eu compreenda que não pode sobreviver sem o tu. Mesmo neste século, em que mandamos foguetes à Lua não reconhecemos que, quando contrariamos uma lei natural, quando espalhamos inseticidas, quando poluímos a atmosfera com radiações e gases tóxicos, estamos condenando-nos a um futuro castigo”. Como se vê, falta consciência e não informações. Trágico, não é mesmo?

Perguntaram-me, várias vezes, qual é a notícia que eu gostaria de dar em manchete, para me sentir realizado como jornalista (profissional que, supostamente, lida com a realidade nua e crua), como editor e como homem. São tantas! Uma, por exemplo, seria a de que a ciência descobriu a cura para doenças incuráveis, como a Aids e outras tantas mais. Outras? A de que nenhuma pessoa passa fome no mundo; não há criança abandonada e nem idoso desamparado e que a humanidade, finalmente, chegou à conclusão óbvia de que a guerra e a violência não são caminhos para resolver controvérsias.

Outra, ainda? A de que o homem aprendeu não apenas a prevenir, mas a neutralizar (caso não possa evitar) cataclismos naturais, como vulcões, tufões e terremotos, como os que assolaram o Haiti, o Chile e o Japão, ou como as tsunamis que em 2004 arrasaram as costas de vários países, notadamente da Indonésia e como a recentíssima, que engoliu e vomitou vilas e cidades japonesas, ou como o furacão Catrina, que devastou Nova Orleans, e assim por diante.

Engraçado como as coisas ditas assim, nestes tempos loucos, soam como impossíveis! Parece conversa de maluco. Não combinam com a atividade do jornalista, por se tratar de mera ilusão. E, no entanto, algumas dessas manchetes são, potencialmente, tão factíveis, tão realizáveis, tão simples, com um pouquinho só, com um mínimo de vontade, de bom-senso e de amor!! Mas aí é que são elas.

Os que apregoam que são “realistas” na maioria das vezes sequer sabem definir o que seja realidade e muito menos fazer distinção entre esta e sonhos e idealizações. Aliás, em vez de estarem à sua procura, como pomposamente apregoam, fogem, como lebres assustadas, da sua crueza, violência e horror. Não conseguem encará-la, como não encaram o sol de frente, sem a devida proteção.

Seu apregoado realismo não passa de mera máscara para disfarçar o pessimismo com que encaram a vida. E o pessimista, mesmo que não se dê conta, é um doente. Encara tudo e todos sob um prisma negativo, sofre sem necessidade e parece se comprazer com o sofrimento.

O que é o real? O nascimento? Alguém é capaz de determinar por que, entre tantos espermatozóides potencialmente geradores de vida, justamente o que lhe originou foi o que fecundou um óvulo específico? “Ah, a realidade está na morte”, dirão alguns. Por que, então, algumas pessoas morrem, às vezes sem completar um reles dia de vida (não raro nem minutos), e outras, com doenças incuráveis, chegam a sobreviver por cem anos?

Prefiro, pois, o critério de realidade de João Guimarães Rosa: “O real não está na saída e nem na chegada, está na travessia”. E a constatação de T. S. Elliot, com o devido reparo que fiz, de que “a espécie humana não pode suportar a realidade”. Dei um nó em suas cabeças, não é mesmo? Embora estas divagações não tenham a mínima utilidade prática, desafio: pensem nisso!

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