Wednesday, September 19, 2007

Poesia concreta - III


Pedro J. Bondaczuk

(CONTINUAÇÃO)

NOVA VISÃO DE MUNDO

A poesia concreta se propôs a ser uma nova visão, mas, sobretudo, nova expressão de mundo que, quando do lançamento desse movimento, se tornava mais e mais complexo. Estava em pleno andamento, por exemplo, a chamada Guerra Fria, opondo as duas superpotências mundiais, Estados Unidos e União Soviética, e seus respectivos blocos. A Europa estava em plena efervescência de reconstrução, após a enorme destruição deixada pela Segunda Guerra Mundial. As colônias européias da África iniciavam um movimento generalizado pela emancipação, não raro de forma violenta, mediante movimentos guerrilheiros, que se multiplicavam por todo o continente. O gigante chinês, por seu turno, despertava de seu sono milenar, sob o férreo comando do mentor da “Grande Marcha”, Mão Tsé-Tung, constituindo-se em novo elemento de conflito, no já por si só tenso panorama internacional.
No Brasil, emergia uma nova classe média, que reivindicava maior participação na riqueza nacional, concentrada ainda (como, ademais, atualmente) em pouquíssimas mãos. O País havia atravessado um período de grandes turbulências políticas, após a tentativa de deposição de Getúlio Vargas, que o levou a se suicidar, apesar da eleição de Juscelino Kubitschek, que por pouco foi impedido de tomar posse pelos militares, que se rebelaram em Aragarças, o que se repetiria, tempos depois, em Jacareacanga.
O novo presidente, porém, assumiu, com uma plataforma desenvolvimentista, que começou a pôr em prática desde os primeiros dias de sua gestão. Começou a investir pesado na industrialização do País, estabelecendo a indústria automobilística, a naval e todas as outras necessárias para darem suporte a essas duas. Apresentou à Nação um projeto, encarado, então, como delirante, de transferência da Capital Federal do Rio de Janeiro para o coração do Brasil, o Planalto Central, que constava em todas as Constituições brasileiras, mas que, até então, não passava de letra morta, de mero penduricalho, que ninguém acreditava, seriamente, que algum dia sairia do papel.
É verdade que a poesia concreta era, sobretudo, um movimento literário. Tratou-se de um ataque frontal à produção poética da metade do século XX, no País, amplamente dominada, na ocasião, pela segunda geração do Modernismo, a de 1945. Os então jovens paulistas, que propunham essa revolução artística, notadamente Décio Pignatari e os irmãos Haroldo e Augusto de Campos, acusavam os poetas em evidência na época de falta de capricho na produção de sua obra.
Condenavam, acima de tudo, o seu verbalismo – que acusavam de ser vazio –, e seu subjetivismo – que entendiam ser exacerbado –, além da sua incapacidade de expressar a nova realidade do mundo e, sobretudo, do País, gerada pela revolução industrial, que estava em pleno andamento com o início do governo JK. Augusto de Campos declarou, a esse respeito, na ocasião: “O velho alicerce formal e silogístico-discursivo, fortemente abalado no começo do século, voltou a servir de escora às ruínas de uma poética comprometida, híbrido anacrônico do coração atômico e couraça medieval”.
Claro que a poesia concreta não surgiu assim do nada, como num passe de mágica, da noite para o dia, fruto de súbito estalo mental, em algum eventual e hipotético processo de geração espontânea. Nada disso. Teve um relativamente longo processo de maturação e várias fontes (de épocas e países diversos) de inspiração.
Augusto de Campos declina, explicitamente, quais foram esses embriões do movimento: “Mallarmé (‘Um coup de dés’ – 1897), Joyce (‘Finnegans wake’), Pound (‘Cantos – ideogramas’), Cummings e, num segundo plano, Apollinaire (‘Calligrames’) e as tentativas experimentais futuristasdadaístas estão na raiz do novo procedimento poético, que tende a impor-se à organização convencional cuja unidade formal é o verso (livre inclusive)”.

(CONTINUA).

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