Saturday, September 29, 2007

Libertadores da América


Pedro J. Bondaczuk

A América Latina geme, solitária,
em cárceres infectos e imundos
de covardes e cruéis ditaduras.

O mágico pássaro Quetzocoatl
agita asas de chumbo e fogo
e grasna, agoniado protesto,
que ecoa na noite da história:
sombrio cântico de guerra.

A memória de Montezuma
clama por ancestral vingança
e o sangue de Tupac Amaru
torna fértil a semeadura de ideais
no sagrado solo da América.

O enérgico empenho de Marti,
voz do valente povo de Cuba,
vibra no ar, ecoa no tempo,
inspira milhares de Sandinos,
Guevaras, Peredos e Baytemans.
Gloriosa geração de patriotas!
Sonhadores mártires da liberdade!

Dos abismos continentais,
das masmorras de Stroessner,
infestadas de ratos e piolhos;
das profundezas sombrias
dos calabouços da Argentina;
dos recônditos infernos
das prisões de Pinochet,
num só brado, uníssono grito,
como o das águias dos Andes,
dos condores dos picos nevados,
a voz da América vingadora,
mil trombetas de Jericó,
explode, na abóbada da História,
ecoa nos llanos, planaltos e florestas.
Convoca famintos guerreiros
para a sonhada alvorada de luz!

Nem as celas úmidas, testemunhas
da paranóia de Papa e Baby Doc,
nem os tétricos bichos-papões,
esbirros dos Tonton-Macoutes,
calaram os ousados protestos
dos lídimos descendentes
do libertador Pierre Toussaint.

Até as pedras, santificadas pelo sangue
dos jovens mártires da liberdade,
clamam, na voz sibilina do vento,
pela vida dos estudantes que
foram, covardemente, imolados
na Universidade de El Salvador.

Os picos nevados dos Andes
soluçam emocionadas coplas,
em plangentes réquiens,
por Quiroga Santa Cruz.

Mas a voz genuína da América,
coro incontrolável de heróis,
nem cárceres imundos e cruéis,
nem muralhas, feitas de olhos,
nem celas, de unhas ferinas,
nem o gargalhar das metralhas
ou a ordem imperativa dos fuzis,
haverão de calar ou abafar.

É a voz genuína da América que
a despeito da paranóia dos tiranos
e da injusta servidão da gleba,
há de ecoar no horizonte da História.

É a voz dos aztecas, pipilas,
dos incas, toltecas e maias,
dos aimorés e dos tapuias,
dos gaúchos, dos pampas austrais,
ou a dos bravos guaranis;
é o brado de vingança da América,
clamor de arcanas civilizações,
que seguirá convocando à justiça,
pela noite infindável do tempo,
todos povos amantes da paz!!!

(Poema composto na redação do jornal Diário do Povo, em Campinas, em 21 de novembro de 1980).

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