Sunday, August 19, 2007

Guerra dos sexos


Pedro J. Bondaczuk


Espancamentos domésticos



Ao contrário do que diz a letra de uma popular música "funk", "tapinha de amor" dói, e muito. Até porque, quem ama não agride, nem por ações e nem por palavras, e muito menos explora, mutila e mata sua parceira. Esse comportamento odioso, de agressão e de continuado desrespeito masculino em relação à sua parceira, prevalece no mundo todo. Em alguns países verifica-se, até, considerável aumento dos casos de agressão, que via de regra permanecem impunes.

Muitas autoridades consideram esses episódios meramente como "assuntos de família", e não como graves delitos, passivos de punição aos agressores, e por isso, evitam de interferir, a menos que a vítima de espancamento venha a falecer. Daí a carência de estatísticas a respeito, em especial dos países islâmicos, asiáticos e da América Latina.

Mulheres têm sido condicionadas, ao longo da história --- mesmo nestes tempos de globalização, em que têm cada vez mais acesso a todo o tipo de informação --- desde meninas, à sujeição e à absoluta obediência ao homem, seja pai, irmão, namorado ou marido. São tratadas como subalternas, eternas crianças, sem vontade, responsabilidade e tirocínio para distinguir o bem do mal. Por medo, ou condicionamento, ou outra razão qualquer, sujeitam-se a essa situação absurda e até condicionam as filhas para agirem dessa forma.

Trata-se de questão até cultural, de arraigada mentalidade de dominação do suposto "sexo forte" sobre o alegado "sexo frágil", que precisa ser mudada, e logo, mediante amplas e repetitivas campanhas de conscientização, além da aprovação de leis muito mais duras e severas do que as atuais, e que sobretudo sejam rigorosamente cumpridas pelas autoridades, além de uma reação enérgica e sistemática por parte das vítimas.

Todavia, em vastas partes do mundo essa idéia de sujeição é, não somente mantida, como muitas vezes ampliada. Em 1995, por exemplo, os países islâmicos (cuja população somada gira ao redor de 900 milhões de pessoas), divulgaram a doutrina da "Eqüidade Relativa". Ou seja, rejeitando a noção da igualdade de direito entre os sexos.

A tese em questão, inclusive, foi apresentada oficialmente, em conjunto pelas delegações muçulmanas, na "IV Conferência Mundial sobre a Mulher", organizada pela Organização das Nações Unidas, realizada de 4 a 15 de setembro daquele ano, em Pequim, na China. Na Índia, a palavra em sânscrito para "marido" significa "dono". Mesmo quem não admite essa postura, a adota na prática, tanto nos países considerados potências, em termos políticos, econômicos, militares, sociais e culturais, quanto nos Estados atrasados e miseráveis da África e da Ásia, que integram o que se convencionou chamar de Quarto Mundo (nestes, evidentemente, em grau e intensidade infinitamente maiores).

A deputada federal Iara Bernardi, do PT de São Paulo, observou, com muita propriedade, em artigo publicado no Correio Popular: "A mulher, no Brasil, continua a ser vista como uma extensão ou uma propriedade masculina, o que confere ao homem o pretenso direito de dispor de sua liberdade, de seu corpo e de sua vida". Essa idéia de dominação e de sujeição é que precisa ser combatida e substituída pela de parceria e cooperação, em estrito pé de igualdade.

(Capítulo do meu livro, inédito, "Guerra dos Sexos)

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