Saturday, March 21, 2009

REFLEXÃO DO DIA


Todos temos, em maior ou menor quantidade, lembranças amargas de fracassos profissionais, de amores que não deram certo, mas deixaram marcas; de sonhos nunca concretizados ou de ideais que deixamos pelo caminho sem que saibamos a razão. O mais prudente e sábio é, se possível, nos livrarmos dessas “quinquilharias” emocionais, que só ocupam espaço que poderia ser preenchido com recordações agradáveis, de sucessos, de afetos marcantes, de coisas que pareciam impossíveis de serem feitas e que o foram e de novas metas a nos conferirem motivação e sentido. Devemos proceder como fazemos, vez ou outra, com os quartos de “bagunça” que quase todos temos em casa (ou nos fundos de uma garagem) onde acumulamos objetos sem uso, em geral quebrados. Seria mais prático comprar outros, mas teimosamente pensamos em consertá-los um dia, mas nunca os consertamos. Lá um belo dia, criamos coragem e nos desfazemos dessas bugigangas. É certo que não demora muito para preenchermos esse espaço com novas quinquilharias. Com as lembranças, porém, é conveniente não agir assim. É sábio não renovar as que eram ruins e foram descartadas. Por que represar emoções inúteis e, pior, que causem sofrimento, nos subterrâneos da alma? O poeta Afonso Schmidt tem um soberbo soneto a esse propósito, intitulado “Barba-azul”. E ele o encerra com estes magníficos tercetos, em que diz: “Neste beijo, porei nas tuas mãos suaves/o maldito esplendor das áureas sete chaves/do velho coração...Vem habitá-lo, pois,//não devasses, porém, subterrâneos e fossos;/morrerás de pavor, se vires os destroços/das quimeras que amei e trucidei depois”. Afinal, não queremos que a amada, quando vier a habitar de vez nosso coração, “morra de pavor” ao ver restos de sonhos, trucidados com requintes de crueldade, não é mesmo?

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