Saturday, December 09, 2006

Visita inoportuna


Pedro J. Bondaczuk

Batem...Insistem...Já é tão tarde!
A madrugada, lenta, escoa, avança.
Breve vai raiar o novo dia,
quem sabe, renascer a esperança.
Batem de novo...Teimam...Insistem...
Quem viria, afinal, a estas horas
tardias a minha casa visitar?
Seria a amada arrependida?

Batem outra vez...Agora mais forte.
E de novo, de novo, de novo.
Quem comigo se importaria
--- eu que sou triste, obscuro, sem vintém –
e em hora imprópria e tardia?
(A aurora desponta no horizonte além).
Vi tanta gente neste tormentoso dia!
Não abrirei! Não quero ver ninguém!

Insistem...Batem outra vez...De novo...
Tento, mas não consigo, resistir
à minha súbita, incontida curiosidade.
Enfim, cedo. Decido a porta abrir.
Não que alguma coisa me importe.
Nada mais importa de verdade.
Mas, talvez, esteja ali a sorte.
Ou, quem sabe, a felicidade.

“Ó, Dona Saudade, pode entrar!
Não repare neste domo vazio,
afinal, lá fora o vento é frio,
apesar do brilho intenso do luar.
Entre, entre, fique à vontade,
faça o que melhor lhe convém,
porque, o certo, Dona Saudade,
é que preciso prosear com alguém”.

“Aceita um cigarro? Um café?
Ou um chá de hortelã com biscoitos?
Quem sabe, um uísque, até?
Temos tempo. Não sejamos afoitos.
A conversa será longa e calma
e antes que todos acordem.
Contudo, não repare na desordem
em que se encontra minha alma”.

“A propósito, ainda que mal pergunte,
(sei que muita pergunta irrita
e talvez a torne arredia)
a que vem esta súbita visita
e ainda mais em hora tão tardia?”

“Vamos, se abra, que novidades
você me traz de apagadas lembranças?
Minhas tolices, enganos, vaidades?
Minhas inócuas, inocentes vinganças?
São coisas que podem me perder,
mas não me causam mínima emoção!
Não, não me lembre, quero esquecer!
Exijo, em troca, uma suave recordação”.

“Tudo isso já passou, se apagou, sumiu,
perdeu-se nas nebulosas esquinas
do Tempo e ninguém sequer pressentiu.
Não tinha beleza, substância, poesia.
Não! Não é o que desejo ouvir!
Prefiro esta suave melodia
a bailar, a descer e a subir”.

“Se é Shubert? Um instante, deixe ver...
Não! É de Chopin a composição
que consegue me encantar, me embevecer
e despertar tão aguda emoção.
Suas notas bailam, vadias, no ar,
e me deixam, assim, tão tristonho.
É um disco de vidro a rodar
preguiçoso, no picape de sonho”.

“Você traz remotíssimas lembranças
da distante e sofrida infância?
Dos folguedos, dos jogos, das danças,
de ocorrências sem qualquer relevância?
É um ato de abjeta maldade,
de muita falta de consideração!
Por que, por que, Dona Saudade,
despertar tamanha inquietação?”

“Os meus instantes de tédio? Céus!
Ei-los, à sua frente, empalhados
todos, expostos como troféus
e devidamente catalogados!
Minha ilusão de ontem, tão recente,
aquele poema não-escrito?
Impossível! Eu não acredito!
Pulverizaram-se, simplesmente!”

“Os sonhos especiais, que outrora
foram azuis? Mudaram de cor!
Se evaporaram, foram embora.
Deles só restou o estupor,
pela rápida decomposição.
É de arrepiar os cabelos!
Restou só um travo de desilusão:
hoje são fantasmas, são pesadelos!”

“Bem, basta, é hora de partir.
É tarde, estou cansado, a noite é fria
e o sono é grande, preciso dormir.
Sua visita não teve serventia.
Vamos, o que espera, está na hora,
não quero mais me exasperar.
Saia, saia depressa, vá embora!
E não precisa nunca mais voltar!

(Poema composto em Campinas, em 18 de março de 1968).

1 comment:

Dourado said...

Poemão.

Mas, por mais q se tanje a saudade cisma em ficar à espreita.

A bicha é q nem sapo.