Monday, December 25, 2006

Divagações sobre o Natal


Pedro J. Bondaczuk


O Natal tem o poder de mexer com meus sentimentos e emoções como nenhuma outra data do ano, de tornar-me ainda mais emotivo do que normalmente sou (e olhem que sou demais!) e de fazer com que me mostre dispersivo e sem imaginação, justo eu que prezo tanto a racionalidade, o autodomínio, a concentração e, sobretudo, a criatividade em tudo o que faço.
Sei, sei, impaciente leitor, que estou sendo repetitivo. Não precisa me apontar esse dedo acusador e lembrar que eu já disse tudo isso em pelo menos uma dezena de crônicas alusivas à data. Disse mesmo! E, provavelmente, direi de novo, quantos forem os textos dessa natureza que vier a produzir. Afinal, escrever sobre o Natal não passa de variações infinitas sobre o mesmíssimo tema. Ou não é?!
Ademais, não posso deixar de me repetir, quando o sentimento que me leva a essa repetição não mudou. Ou seja, é, por sua vez, também repetido, ano após ano. Creio que, mais do que falta de assunto, essa minha insistente reiteração mostra, antes de tudo, minha coerência. Ou não mostra? Pior seria se eu me contradissesse nessa crônica. Se confessasse emoções que não sinto e se garantisse não sentir o que, de fato, me vai na alma.
Mas, deixando de enrolação, o tema que vou abordar hoje não é bem este. Para contrapor a minha falta de imaginação ao escrever sobre a data, destaco a total falta de criatividade na forma dela ser comemorada em nosso país, que não passa de cópia mal-feita de comemorações similares da Europa e dos Estados Unidos.
É fato que o Natal envolve, sobretudo, tradição. E que parcela expressiva da nossa população é descendente de imigrantes europeus. São coisas que não nego, e nem poderia (pelo menos em sã consciência) negar. Todavia, a imensa maioria do nosso povo é constituída da quarta ou quinta geração daqueles peregrinos originais que vieram para estas plagas tropicais tentar sorte melhor do que a que tinham em suas pátrias de origem.
Seus tetra-avós, bisavós, avós e pais cederam aos encantos dos nativos e misturaram os seus genes, no magnífico cadinho das miscigenações, aos dos descendentes de africanos, de índios e de asiáticos, o que resultou numa nova etnia: a brasileira. A essa altura da história, portanto, já podemos afirmar, com segurança, que nestas terras abençoadas por Deus, em que em fevereiro tem Carnaval, surgiram um novo homem e uma nova mulher. E não temos, em absoluto, que nos envergonhar disso. Alguns parecem ter vergonha! Tolice. Temos, sim, é que comemorar e que nos orgulhar dessa mistura.
Por que, então, não darmos vazão à nossa própria e rica cultura, considerada exótica por muitos, mas de uma riqueza incomparável quando confrontada com as demais? Por que não festejarmos o Natal (e não somente ele, mas todas as outras datas, consideradas universais) à nossa maneira? Temos sempre que macaquear os outros?
Vejam, por exemplo, o estereótipo do Papai Noel. Não tem absolutamente nada a ver com nossos costumes. Ainda se a lenda dissesse que ele provém do Pólo Sul, poderia, forçando muito a barra, se dar um desconto. Mas não! Essa figura que ainda assanha a imaginação de algumas crianças, em plena era da internet, provém do extremo Norte do mundo! E esse mito natalino (mito que, reitero, não tem nada a ver conosco) já destoa de cara em suas vestes.
Raciocinemos. O Natal, por aqui, cai logo no início do verão que, dependendo da região, é sempre quentíssimo, “senegalesco”, como diriam os locutores esportivos. Papai Noel, com aquela sua roupa pesada, e ainda mais vermelha (que absorve, portanto, o calor em vez de dissipá-lo) não resistiria a uma única temporada entre nós. Morreria de insolação ou, literalmente, “derreteria” neste nosso calor tropical.
Se quiserem usar essa figura simbólica, muito que bem. Usem, mas façam, pelo menos, a caridade de adaptar os seus trajes à realidade climática do nosso País. Já não digo que ele deva vestir bermuda e uma camisa leve e florida, como os turistas que visitam o Rio de Janeiro nesta época do ano usam (aliás, ideal para o nosso clima), mas pelo menos vistam nele uma roupa mais condizente. Talvez a melhor indumentária fosse aquela espécie de bata branca que os membros do bloco carnavalesco Filhos de Gandhi vestem em seus desfiles no Carnaval, pelas ladeiras do Pelourinho, em Salvador. Mas aí já seria um exagero. Muitos considerariam um escracho.
Claro que é possível enumerar mais uma centena de incongruências na forma como comemoramos a data por aqui. Aqueles tufos de algodão, por exemplo, para dar a entender que são flocos de neve, colocados a título de enfeites nas árvores de Natal, não condizem, claro, nem um pouco com a nossa realidade. Não se esqueçam, reitero, que estamos em dezembro e, portanto, em pleno verão por estes trópicos ardentes. Ademais, pouquíssimos brasileiros já viram neve na vida, só presente, nos meses de junho e julho (e assim mesmo nos invernos inusitadamente rigorosos) em São Joaquim e em mais duas ou três cidades das serras catarinense e gaúcha.
E as comidas das ceias natalinas, então! São um massacre para o fígado de qualquer cristão e uma agressão ao organismo dos que lutam contra a obesidade! No entanto, temos uma riqueza gastronômica incomparável (e saudável) que é deixada de lado, apenas para macaquear outros povos. Claro que você, leitor exigente e severo, vai achar esta crônica ridícula. Paciência. Para dar-lhe um toque de erudição, porém, cito o que escreveu William Shakespeare, há quase cinco séculos: “No Natal, não almejo uma rosa nem desejo neve sobre a alegria de maio. Apraz-me em cada estação o que lhe pertence”.
Notaram o que o bardo de Stratford-Avon quis dizer, no remoto século XVI? Pois é, ele me dá plena razão. Afirmou que devemos nos contentar com o que cada estação do ano tem a nos oferecer. Que não se pode querer colher rosas, em nosso jardim, em dezembro (que é inverno na Inglaterra) e nem pretender que caia neve em maio (primavera em seu país). Para o caso brasileiro, basta trocar o inverno pelo verão e a primavera pelo outono e a citação caberá como uma luva para nós. Comemoremos, sim, o Natal, e com tudo a que temos direito. Mas à moda brasileira! E tenho dito!

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