Saturday, November 26, 2011







Dor de cotovelo

Pedro J. Bondaczuk


Confuso até a raiz dos cabelos,
já ébrio, quis fugir da solidão.
Fiz-lhe reiterados apelos:
“Volte, amada, volte!”. Em vão!

Em minha dor de cotovelo,
refugio-me em sombra espessa
e num copo de uísque com gelo.
Você não me sai da cabeça!

Lembro, tim tim por tim tim,
- ah traiçoeira memória! –
o que procuro esquecer,
nossa turbulenta história...
Não, não consigo me conter!

Deliro, trôpego e embriagado,
a vagar às tontas pela casa,
e num oceano do passado
sou peixe de ferro em brasa.

Dialogo com o abismo,
com uma ilha que se ergue
tonto, faço malabarismo,
e sinto-me instável iceberg.

A lua da minha rua
parece-me tão sem graça!
Vejo-a tão bela, nua
nas espirais de fumaça.

“Ah, velho poeta aloprado,
fique atento por onde pisa”.
Cada vez mais embriagado,
ouço uma canção de Maysa.

Solidão... Mágoa... Desespero...
Gigante ébrio... de pés de barro!
Acumulam-se no cinzeiro
cinzas, muitas cinzas de cigarro.

Tomo outro uísque com gelo.
Treme, instável, minha mão.
Maldita dor de cotovelo!
Amanhã pedir-lhe-ei perdão...

(Poema composto em Campinas, em 13 de dezembro de 1966).


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