Wednesday, August 10, 2011







Inesgotável fonte

Pedro J. Bondaczuk

As experiências pessoais do escritor são inesgotável fonte de histórias, que não raro se tornam best-sellers, se este tiver talento (e uma razoável dose de sorte, claro). Em geral, são matérias-primas de bons romances. Não raro um fato inusitado, há muito esquecido, algum lugar pitoresco e insólito, alguma pessoa que, por uma razão ou outra, nos marcou, vêm, subitamente, à memória, sem mais e nem menos, sem aviso prévio e acende, em nosso cérebro, uma luzinha brilhante, que fica piscando como um cartaz de neon.
“Isso dá um bom enredo”, concluímos. E a partir dessa constatação, tudo começa a ganhar forma, a se esboçar, a fermentar em nossa cabeça. Não tarda para que comecemos a criar personagens, inventar circunstâncias, elaborar situações interrelacionadas. E, quando nos damos conta, eis que surge o “esqueleto”, o arcabouço, o alicerce ou de um conto, ou de uma novela ou, e principalmente, de um romance. O passo seguinte é óbvio. É sentar-se junto ao computador e pôr mãos à obra.
Claro que nem todas as histórias nascem dessa maneira. E nem todas que surgem assim acabam em best-sellers. Boa parte delas, porém, tem essa origem, essa fonte, isso que chamamos, genérica e eufemisticamente de “inspiração”. E esse me parece ter sido o ponto de partida de um romance que acabei de reler e que consolidou a primeira e favorável impressão que tive dele quando o li pela primeira vez. Refiro-me ao livro “A casa dos espinheiros”, da inglesa Mary Stewart.
Previno, de antemão, que não se trata de lançamento. Acrescento que estas considerações, também, não são nenhuma resenha. São comentários despretensiosos, porém creio que válidos, que partilho com vocês. O referido romance, cujo título original é “Thornyhold”, foi publicado, pela primeira vez, em 1988. Faz tempo, não é verdade? A edição que tenho em mãos é a da Biblioteca Seleções, da publicação norte-americana Reader’s Digest, que assinei por um bom tempo e que mensalmente nos permitia (creio que ainda permite) o acesso a excelentes obras, em geral de ficção, quase sempre de escritores de língua inglesa.
Embora faça, vez por outra, comentários de lançamentos, prefiro comentar livros que já têm histórico de vendas e de críticas. Suas qualidades (e defeitos, por que não?), já “decantaram” e as observações tendem a ser muito mais pertinentes e exatas, posto que com pleno conhecimento de causa. Nestes casos, antes de me aventurar a escrever a respeito, faço uma, ou se necessário mais de uma, releitura, para não ser traído pela memória.
O romance de Mary Stewart tem vários ingredientes, característicos dos escritores ingleses, pois mistura tradição com toques de modernidade, casas assombradas, bruxaria etc., tudo temperado com muito suspense e, claro, uma boa história de amor. Um enredo que se preze tem que ter esse ingrediente essencial, esse sentimento que é o foco central de praticamente todos os escritores.
E onde está a tal da experiência pessoal, ou retalho de lembrança de algum episódio vivido pelo autor (no caso, autora) em torno do qual construiu o enredo? Está na personagem central da história, Geillis Ramsey, que tem vários ingredientes que Mary extraiu da sua vida. Por exemplo, ambas (a autora e sua criação) “estudaram” na Universidade de Durham, Norte da Inglaterra. Como não se trata, no entanto, de biografia, a personagem, Gilly, não concluiu o curso, tendo-o abandonado no meio. Já a escritora não somente graduou-se na tal escola superior, como o fez com brilhantismo e louvor. Tamanho, que se tornou professora da instituição.
Querem outra semelhança, que sugere identidade entre criatura e criadora? Um grande amor pelos animais, que perpassa por todo o romance “A casa dos espinheiros”. Uma cena, em particular, Mary confessa que tirou de sua experiência, de algo que ocorreu com ela. É a em que Gilly socorre uma ovelha que estava presa num emaranhado de espinhos.
A esse propósito, a escritora revelou: “Realmente aconteceu há muitos anos, com a diferença de que não contei com a ajuda de um belo cavalheiro”. Este, inexistente na vida real, foi acrescentado à história como ingrediente essencial, ou seja, o de um amor que, a princípio parecia improvável, se não impossível, mas que, como secretamente o leitor certamente desejava, tem seu “happy end”.
Para não deixar vocês completamente no ar sobre o enredo de “A casa dos espinheiros”, reproduzo este trecho da orelha do livro: “Gilly Ramsey é uma jovem que recebe uma herança da madrinha. Trata-se da Casa dos Espinheiros, uma velha mansão no interior da Inglaterra. Gilly encanta-se pela casa, e por William, seu vizinho de dez anos. Mas é o pai viúvo de William, Christopher John, que faz o coração dela bater mais forte”.
Mais do que isso, não revelo. Recomendo, isto sim, que, se tiverem oportunidade, leiam este apaixonado e apaixonante romance dessa escritora conhecida nos meios literários da Inglaterra como “a dama do encantamento”. A leitura comprova a justiça dessa fama.

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