Wednesday, September 15, 2010




Experiente, mas com alta rejeição

Pedro J. Bondaczuk

O comando técnico da Seleção Brasileira foi entregue, em 1992, a Carlos Alberto Parreira, treinador experiente, vivido no futebol, mas que tinha alta carga de rejeição, tanto por parte da imprensa, quando da maior parte da torcida. Ele tinha dupla incumbência na oportunidade: classificar o Brasil para a Copa de 1994 – o que, em princípio não parecia tão difícil – e buscar o tetra em terras norte-americanas – o que muitos considerava impossível. Eu não! Sempre acreditei no Brasil, fosse qual fosse a seleção formada.
Fiquei feliz quando Parreira conseguiu calar a boca dos pessimistas e derrotistas, conquistando o tão sonhado tetra e pondo fim a um jejum de conquistas que já durava 24 anos. É certo que a Seleção, sob o seu comando, não jogou, a rigor, um primor de futebol, algo de encantar os olhos. Mas quantos dos ganhadores de copas do mundo deram espetáculo? No meu entender, nenhum!! À exceção, claro, do próprio Brasil em 1958, 1962 e 1970. É que nossa imprensa tem a mania de puxar o saco dos não brasileiros. É o velho e conhecido “complexo de vira-latas”.
Até hoje, esse título de 1994 é encarado como “coisa menor”. Há quem o classifique assim pelo simples fato de ter sido decidido na cobrança de pênaltis contra a Itália. Acho isso de uma estupidez fabulosa. Vitória é vitória, e estamos conversados. Ou foi melhor perder, posto que jogando bem, em 1982? Para mim não foi!!! Pelo contrário, deixou-me uma frustração maior do que a deixada em 1966 ou em 1990, quando não jogamos rigorosamente nada e deixamos esses mundiais de forma melancólica.
Carlos Alberto Parreira, quando assumiu a Seleção Brasileira, tinha vasta experiência como treinador. Havia comandado clubes como o Fluminense (que trouxe da Série C para a B) e o Bragantino, com o qual conquistou um vice-campeonato nacional da principal divisão. Anos depois, faria memorável trabalho no Corinthians. É certo que na Espanha não se deu bem, dirigindo o Valência. Mas isso aconteceu depois da Copa de 1994.
Em 1970 e 1974, Parreira integrou as comissões técnicas de Zagallo, como um dos preparadores físicos. Na campanha do tri, foi supervisionado pelo Capitão Cláudio Coutinho, com o qual aprendeu não somente novos métodos de preparação física, mas conhecimentos teóricos e práti8cos de táticas de futebol. Assimilou muito, principalmente, com o “Velho Lobo”, com o qual formaria parceria não apenas nessa Copa, mas também em outras duas: as de 1998 e 2006. Nos Estados Unidos, Zagallo seria seu supervisor, assim como na Alemanha. Na França, haveria inversão de papéis.
Parreira já havia sido técnico de duas seleções diferentes, em dois mundiais consecutivos: Kuwait e Emirados Árabes Unidos. Não foi muito bem, é verdade, mas com o material humano com que contou, até que fez milagres. Os xeques desses dois países não entenderam dessa maneira. Paciência!
Experiência, portanto, não faltava a Parreira quando assumiu a Seleção Brasileira em 1992. Ele teve que conviver com uma onda de protestos e com pressões de toda a sorte por dois longos e intermináveis anos. Não lhe deram trégua e nem o menor sossego para trabalhar. As críticas multiplicaram-se principalmente por ele manter a base de 1990, grupo que havia caído em desgraça aos olhos da opinião pública.
Parreira é um sujeito tranqüilo, cordato, cortês, mas de personalidade forte. Não se deixa influenciar pelo que a imprensa diz. Às vezes comete erros, é verdade. Como o que cometeu, por exemplo, nas eliminatórias praticamente inteiras, ao manter Romário fora das convocações até o último jogo dessa fase, aquele contra o Uruguai que, se o Brasil perdesse, ou mesmo empatasse, não iria para a Copa de 1994. Foi salvo pelo gongo. O Baixinho foi chamado, entrou, acabou com os uruguaios e nossa seleção, com a vitória por 2 a 0, ultrapassou a Bolívia no número de pontos, além do próprio Uruguai que ameaçava tomar nossa vaga, e se classificou em primeiro lugar.
“Com esse time e com esse técnico não vamos passar da primeira fase”, diziam os pessimistas, na oportunidade, que eram na verdade a maioria. Os jogadores, no entanto, encheram-se de brios com isso. Cerraram fileiras em torno do treinador e passaram a jogar por ele. Adotaram, entre outras coisas, o hábito de entrarem de mãos dadas no campo, para mostrar aos torcedores que estavam unidos em torno de dois objetivos: primeiro, classificar-se para a Copa e, segundo, vencê-la.
As eliminatórias para o Mundial dos Estados Unidos foram as mais longas, até então, de todas já disputadas. A América do Sul foi dividida em dois grupos, com nove seleções disputando três vagas, com todas jogando entre si, em turno e returno. Havia uma quarta em disputa, contudo não direta. O segundo colocado do Grupo A, que reunia Argentina, Colômbia, Peru e Paraguai, teria que enfrentar o campeão da Oceania, em jogos de ida e volta. O vencedor iria para a Copa.
E por que a disputa envolvia o segundo do Grupo A e não o segundo do Grupo B? Porque com a suspensão imposta pela Fifa ao Chile, por causa da palhaçada do Rojas no Maracanã quatro anos antes, essa chave contava com apenas quatro participantes. Ela foi vencida pela Colômbia que, em plena Buenos Air4es, sapecou um vexatório 5 a 0 na Argentina.
“Los Hermanos” não atravessavam, então, boa fase. Seu principal jogador, Diego Maradona, às voltas com o consumo de cocaína, não era nem sombra daquele atleta que levou os argentinos à conquista da Copa do México (apesar do célebre gol de mão).
Se o Brasil teve dificuldades para se classificar, a Argentina teve muito mais. Nosso grupo, o B, era integrado, além da nossa seleção, pelas da Bolívia, Uruguai, Venezuela e Equador. Os bolivianos, que marcaram 14 gols nos venezuelanos em dois jogos (ganharam de 7 a 1 em Caracas e de 7 a 0 em La Paz), classificaram-se em segundo lugar e, de quebra, acabaram com a nossa histórica invencibilidade em eliminatórias.

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